Jean-Paul Sarte, em “As Palavras”, único registro autobiográfico do autor, conta sobre os seus primeiros contatos com a literatura. Nesta mágica lembrança de sua infância, ele relata suas primeiras dúvidas e crises existenciais. Escreve sobre o relacionamento familiar, com sua mãe em especial, a quem considerava uma irmã, e com seu avô, figura importante na formação de sua personalidade.
Nesse fragmento de “As Palavras”, Jean-Paul Sartre, oferece um alento onde as palavras abrem passagem para o vídeo.
terça-feira, 30 de setembro de 2008
terça-feira, 26 de agosto de 2008
Wim Wenders

Fui assistir na sexta feira passada, uma palestra no Masp com o cineasta Wim Wenders, que foi sabatinado, entre outros, pelo cineasta Walter Salles e pelo jornalista Alcino Leite Neto.
Wenders que renovou a linguagem cinematográfica em suas releituras dos clássicos americanos, persegue desde seu primeiro longa-metragem: o deslocamento, a fuga, a incomunicabilidade e a solidão. Influências apreendidas, possivelmente, das pinturas do americano Edward Hopper, referência importante no cinema de Wenders.
Logo no início da sabatina, o cineasta alemão fez menção ao arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer, que foi um dos introdutores da idéia de Brasil para ele. Comentou que foi apaixonado pelo trabalho do arquiteto e que ficou impressionado com a idéia de construir uma cidade no meio da selva, assim era apresentada a obra na Alemanha.
Contou que quando jovem, começou sua formação particular em cinema, na cinemateca de Paris, lugar onde era mais barato e quente passar o tempo, por conta disso, assistiu a mais de mil filmes, isso antes de ser aceito para estudar na recém-inaugurada: Escola Superior de Cinema e Televisão de Munique.

Wim Wenders comentou que os cineastas que mais o influenciaram, tinham um forte sentimento em relação a geografia, entre eles o japonês Yasujiro Ozu, o brasileiro Glauber e o norte-americano John Ford. Ele que considera viajar muito interessante para a mente, porque nos torna mais vivos, disse que unificar as duas vertentes: viajar e filmar, faz com que você viva e filme as estórias.
Disse ainda que os filmes podem: transportar as pessoas para outros lugares, nos fazer mergulhar em outros Paises e nos ajudar a descobrir locais e culturas específicas.
Com a experiência de mais de 40 filmes realizados, Wenders disse que hoje está bastante otimista em relação ao futuro do cinema e ressaltou as vantagens das novas tecnologias. Disse que os recursos digitais expandiram a linguagem e o vocabulário do cinema, além de permitir aos jovens diretores uma liberdade muito maior do que tiveram os diretores de sua geração.
Acrescentou que gostaria de ser um jovem cineasta agora e descobrir uma verdadeira voz com as novas tecnologias. Sou um entusiasta com as novas possibilidades, disse acrescentando, que o mundo de hoje não pode ser tratado com o vocabulário antigo.
Wenders chegou a conclusão de que o estilo de produção e narração dele não combinava com a forma de trabalho da fábrica de sonhos comercial norte-americana. Desabafou quando contou sobre sua primeira experiência hollywoodiana, com o mistério Hammett. O produtor era Francis Ford Coppola, um americano que não foi tão seu amigo assim. Devido a diversos conflitos criativos, Wenders demorou a ver seu filme ser lançado, e quando o viu foi com uma versão bastante diferente da que idealizou. Wenders com um jeito cúmplice, disse para o Walter Sales, que estava sentado ao seu lado:”Eu te avisei”. Ele respondeu: “Você não foi enfático o suficiente”.
O cult Wim Wenders, contou que o filme Asas do Desejo, festejado por público e crítica, foi na verdade feito sem roteiro, com improvisações dos atores e inspiração local. O que acontece sem planejamento, ao acaso é precioso, que não controlar o processo criativo, funciona como uma cura para a alma e para a mente, concluiu. Quando foi questionado se isso era possível de ser feito hoje em dia, respondeu que mesmo para ele que já havia provado que conseguia filmar sem roteiro, isso não era possível, então ele confessou que escrevia roteiros falsos, só para conseguir financiamento.Sai do Masp com a sensação positiva, Wenders em nenhum momento pretendeu ensinar, mas com sensibilidade, soube incentivar todos a buscar suas éticas e estéticas a favor da arte.
terça-feira, 5 de agosto de 2008
Lisboa: o que o turista deve ver
Você já pensou em ter Fernando Pessoa como seu cicerone na cidade de Lisboa?!É o que acontece quando você lê o livro Lisboa: o que o turista deve ver. Um guia turístico escrito originalmente em inglês por Pessoa.
A charmosa cidade branca que Fernando Pessoa descreve é exageradamente perfeita, faço o mesmo quando falo de Lisboa para os amigos. Compartilho dessa vontade de exaltar Lisboa para o estrangeiro.
"Sobre sete colinas, que são outros tantos pontos de observação de onde se podem desfrutar magníficos panoramas, estende-se a vasta,irregular e multicolorida aglomeração de casas que constitui Lisboa. Para o viajante que chega por mar, Lisboa, vista assim de longe, ergue-se como a formosa visão de um sonho elevando-se até ao azul intenso do céu, que o sol aviva.(...) Ai está Lisboa."
O poeta começa pela Praça do Comércio, com o enorme arco triunfal que dá acesso à elegante Rua Augusta. Moro em frente ao Tejo, perto dessa praça e de muitos lugares descritos no livro: Rua do Ouro, o elevador da Santa Justa, o Rossio, isso causa uma sensação atemporal, tudo está muito semelhante ao descrito por Pessoa. Fica a impressão que irei encontra- lo no Chiado para tomarmos um café na Brasileira, lugar onde ele prestava homenagem à estátua do poeta António do Espírito Santo, e hoje encontramos o próprio Fernando Pessoa, transformado em estátua sentado à mesa.Pessoa indica ainda, o Teatro Nacional Almeida Garret, hoje chamado de Teatro Nacional Maria II, de onde trago tantas recordações. Ele conduz ainda o visitante pela Avenida da Liberdade, e vai até os jardins do Campo Grande...
“Acordar da cidade de Lisboa, mais tarde do que as outras, Acordar da Rua do Ouro,
Acordar do Rossio, às portas dos cafés,
Acordar
E no meio de tudo a gare, que nunca dorme,
Como um coração que tem que pulsar através da vigília e do sono.”
Com ênfase no nacionalismo ele nos dá a descrição das figuras exaltadas em monumentos, e cita fatos importantes da história portuguesa, e oferece ainda a ficha dos arquitetos e artistas que assinam a construção dos prédios da cidade.
“Lisboa com suas casas
De várias cores,
Lisboa com suas casas
De várias cores,
Lisboa com suas casas
De várias cores ...
À força de diferente, isto é monótono.
Como à força de sentir, fico só a pensar.”

Pessoa demonstra no seu guia, preocupação com a diminuição da importância da capital portuguesa e sua descaracterização diante das demais metrópoles do Velho Continente, o que realmente não tardou a ocorrer. Com toda a visão critica, ainda hoje, reconheço a beleza dos pequenos cantos da cidade, a luz tão aclamada pelos cineastas, os pequenos oásis de verde, e os monumentos que ele tão bem enaltece...
“Pessoa amou Lisboa. Pessoa rima com Lisboa”.
Lis boa! Lis ótima!
segunda-feira, 21 de julho de 2008
Peer Gynt by Berliner Ensemble
No enorme palco vazio, com as cruas luzes bem acesas, lá no fundo surge Peer Gynt, com a roupa suja e um andar duro característico de um homem do povo, caminha até a boca de cena... Ele falava com a voz forte em alemão, com uma figura tão envolvente que a princípio julguei que estava entendendo tudo, e embora contasse com legenda, eu não olhava para ela mesmo não dominando a língua, por alguns momentos não conseguia tirar os olhos do ator Uwe Bohm.Logo depois entra o personagem que é a mãe de Peer, Aase, viúva pobre que tudo faz para o sustentar, compondo juntamente com ele com tanta maestria, que eu fui entrando na poética surreal, e vivendo as aventuras daquele conto de fadas como se fizesse parte dele.
Peer Gynt, é um um anti-herói totalmente fora dos padrões, uma mistura de sensualidade e auto-ilusão, que trata todas as mulheres, mesmo sua mãe Aase, como potenciais objetos sexuais.Durante o espetáculo, havia uma galeria infinita de personagens e seres estranhos: para além da mãe de Peer, e da eterna apaixonada Solveig, havia macacos, doentes psiquiátricos, ladrões, a Esfinge do deserto, homens e mulheres troll, gnomos, beduínos bruxas, e escravas.
Os atores compunham os diversos cenários com muita criatividade, entrando com apetrechos que ganhavam diferentes signos na mesma cena. Víamos também o cenário sair com eles, e havia cenas que saltavam do palco para invadir a platéia, anulando a diferença entre os dois espaços.
É um prazer falar da peça Peer Gynt, que assisti no Festival de Almada (Portugal), com o Berliner Ensemble, companhia fundada por Bertold Brecht, sob direção de Peter Zadek.Henrik Ibsen inicialmente escreveu um poema dramático, chamado: “monstro”, baseado em alguns contos de fadas noruegueses, que não era para ser representado, mas como foi considerado uma obra-prima da literatura escandinava, o próprio Ibsen resolveu adaptar o seu poema para o palco,com o nome de Peer Gynt.
“Tenho ainda a mencionar que hoje lhe envio o manuscrito dos primeiros três atos do meu novo trabalho, intitulado Peer Gynt, um poema dramático. Agora estou curioso por ouvir se lhe agrada. Eu próprio espero o melhor. Não sei se lhe interessa, mas Peer Gynt existiu realmente. Vivia em Gudbrandstal, provavelmente no início deste século ou no fim do anterior. O seu nome não foi ainda esquecido pelo povo de lá em cima, mas sobre os seus feitos não se sabe muito mais do que aquilo que se pode encontrar nos contos de fadas noruegueses, de Asbjornsen”
O diretor Peter Zadek, resolveu enfrentar o “monstro” Peer Gynt, e a sua estreia foi em Abril de 2004 no Berliner Ensemble. Só consegui ver agora e venho compartilhar porque o espetáculo é excepcional. Apesar de Zadek ter iniciado sua carreira em Inglaterra, e seu repertório e estética ficarem longe da tradição alemã, ele é cultuado e venerado na Alemanha. No ano passado ele recebeu o Premio Europeu de Teatro.
Peer Gynt chama atenção durante a mágica noite e nos lembra que o individualismo das sociedades burguesas e o aprisionamento do Peer dentro do seu próprio mundo é uma condição do homem moderno.“Fossemos infinitos
Tudo mudaria
Como somos finitos
Muito permanece.”
terça-feira, 1 de julho de 2008
"Aleksandra" de Aleksandr Sokurov
Sokurov usa o tempo, o momento presente aparentemente interminável, para mostrar o conflito na Chechénia e refletir sobre a totalidade da experiência da guerra. Não há nada no filme que seja superficial, esse tempo do cotidiano, só revela a perda básica da humanidade. Os aspectos emocionais não são ofuscados pelo intelectual, e esse equilíbrio faz toda a diferença.A belíssima fotografia capricha para mostrar o ambiente letárgico, o calor, os corpos que dormem pouco,comem mal e são maltratados pelo cotidiano da Guerra.
O primeiro movimento, para definir o ritmo de Alexandra(Galina Vishnevskaya), mostra como ela chega ao trem blindado e interroga sobre a unidade militar de seu neto Denis (Vasily Shevtsov). É paradoxal as imagens dela entrando dentro do universo da Guerra, potencialmente perigoso… Ela a idosa e experiente entre os jovens fortes e imaturos.
A simples presença física da avó, no meio a guerra confere tensão, mostra a guerra como trabalho inútil, desgastante, onde os soldados sequer defendem a pátria.Entendemos a guerra pelas pessoas que a fazem, pelo lado das relações humanas, pois ela nunca ocorre em frente às câmeras.
A maior parte da narrativa se passa com as caminhadas de Alexandra pelos campos, em meio aos soldados, um acentuado simbolismo da Mãe Rússia e seus filhos.
Um capitão altamente respeitado, propõe o segundo movimento, aprovando sua caminhada para o mercado da aldeia vizinha, onde ela entra em contato com os habitantes locais chechenos, e é muito bem tratada. Fica estampada a solidariedade e o carinho das mulheres que acolhem a Russa que vai comprar cigarros e bolachas para os soldados.
No terceiro movimento, Alexandra está cheia de perguntas, e significativamente, ela insiste em que essas questões são importantes para o País. Ela retorna à base indagando ao seu neto Denis sobre o seu lugar na guerra, o lugar da guerra em todo o mundo, o seu futuro, seu bem-estar…Calmamente, com as simples questões feitas pela avó, chegamos a perceber a razão para tantas perguntas, como: "Onde você lavar?" ou "O que você lê?" porque desemboca no que é preeminente, como a forma de carregar uma arma: "Oh - é assim tão fácil?" no mesmo tom ela continua: "Você já matou? Quantos? E os temas são abordados no local, onde não há espaço para os sentimentos.
Com um cinema poético, Sukorov nos leva a ver no papel de uma velha avó que vai visitar seu neto servindo o exercito na Chechénia, toda a complexidade da Guerra e da política atual da Rússia, em um mundo de especificidade e universalidade.
quinta-feira, 12 de junho de 2008
Livro em Cena - Sobre Humanos
Fiquei ausente por um bom motivo: O Livro em Cena, “Sobre-Humanos” de Paulo Bloise, com posfácio de Heloisa Prieto. Todos estão convidados, para a próxima sexta, no Memorial às 16:00 horas, visite o site:http://www.modernaliteratura.com.br/literatura/animacao/paulob/Gostei de trabalhar o livro “Sobre-humanos”, por sua atitude política, pela sua luta pelos excluídos, os marginalizados, pelo seu empenho na reforma psiquiátrica.
Ele mostra o que se passa atrás dos muros dos hospitais e das conveniências dos sistemas. É um livro de denuncia, que vem multiplicar as inúmeras vozes de seus personagens mostrando a divida que a sociedade tem para com essas pessoas que são presas e obtém um tratamento desumano.Ele mostra o que é a assistência psiquiátrica como exemplo de muitos hospitais.
O olhar do Bloise sobre a diferença e como a sociedade lida com o outro e as suas relações entre linguagem, loucura e cultura, proporciona visibilidade às questões dos portadores de sensibilidade alterada.
Não optamos pela, adaptação das narrativas, mas pela leitura integral do texto inteiramente transposto para o palco. Gestos, emoções, descrevem o que as palavras textuais narram, compondo um espetáculo de alta intensidade e beleza estética por meio do qual se potencializa as várias camadas de significado que a boa literatura é capaz de gerar.
O elenco é maravilhoso e eu sou totalmente suspeita para falar de cada um, assim como da fotógrafa e do video maker, então peço que vocês confiram o percurso profissional de cada uma dessas pessoas e entenderão…Estão todos convidados! Espero por vocês!
domingo, 13 de abril de 2008
Poesiefestival

O Poesiefestival Berlin, que é considerado o maior do gênero na Europa acontece na capital alemã, entre os dias 5 e 13 de julho, na Akademie der Künste (academia das artes).
O festival este ano homenageará a poesia em língua portuguesa. Com um público total estimado em 10 mil pessoas o evento, incluirá na programação: música, dança, performance, artes visuais e leitura de textos.
O festival terá ainda, a participação do poeta carioca Marco Lucchesi, e do cantor, compositor e poeta Arnaldo Antunes.
Vários Países foram homenageados no Poesiefestival, no decorrer dos anos: a Austrália (2003), a Irlanda e a língua celta (2004), os países de língua espanhola (2005), a Suíça (2006) e a poesia canadense, em francês, da província de Québec(2007), e agora podemos festejar a Língua Portuguesa, na moderníssima e vibrante cidade de Berlim.

Você poderá encontrar a programação completa, no site onde é divulgado o festival.
O site é um acontecimento a parte, onde todos podem participar sem sair da poltrona, entrem e usufruam desse acontecimento.
Literaturwerkstatt é a instituição responsável pela organização do Poesiefestival e também pelo site: http://www.lyrikline.org/ onde você encontra uma compilação de poemas escritos em quase 50 idiomas, com 460 poetas e 4600 poemas.
Vamos viajar e nos perder no site, onde no impulso de uma tecla é possível você escutar os poemas lidos por cada autor, falados pela voz humana, pelo som, pela melodia e pelo ritmo de cada poema que é transformado em música.
No site, eles defendem a idéia de que todo poema deve ser lido em plena voz alta, para ser escutado e assim revelado a sua qualidade musical inata.
Eles acreditam que não importa em que língua um poema é escrito e não importa em que parte do mundo ele é lido, porque ele será imediatamente reconhecido como um poema, um concerto de palavras.«…Escrever é tocar no corpo do mundo, é um acontecimento cujas consequências se revelam na trama da obra e na história dos homens…»
“Pensar Letras
Sentir palavras
A alma cheia de dedos”
terça-feira, 1 de abril de 2008
Photo Espanha 2008 - Lugares reais, Espaços mentais
O Festival Internacional de Fotografia e de Artes Visuais, Photo Espanha 2008, que se realiza a partir do dia 4 de Junho até ao dia 27 de Julho em Madrid, (Canal de Isabel II e na sala Alcalá 31). Apresenta um programa centrado nos espaços, concretos ou inventados, como inspiração artística.As propostas de Photo Espanha navegam em todas as direções. Desde Eugene Smith até Tomás Vallhonrat ou Thomas Demand.
Fiquem atentos também para o ciclo de cinema na Filmoteca Espanhola. No Festival Off, Campus PHE, teremos este ano: foto-jornalismo,fotografia conceitual e a fotografia de moda.
Gostei da proposta, de que o conceito de espaço pode remeter a essências míticas, mentais, ou inventadas.
Gostei de pensar nos espaços sugestivos, nos lugares concretos e nos universos em miniatura, como olhar desse Festival.
Gostaria de emprestar meus olhos afetivos, invocar o poder intuitivo e curtir com vocês todas as fotos.Gostaria de cultivar a percepção da beleza da Natureza e sua influência no Poder da Criação.
Gostaria de compartilhar a liberdade de um olhar, criativo, lúcido, e viajar nas fotos que nos levam a expandir nossa consciência!
"O tempo, o tempo, o tempo e suas águas inflamáveis, esse rio largo que não cansa de correr, lento e sinuoso...".
quarta-feira, 19 de março de 2008
Hilda Hilst e o Processo de Teatro
Estamos vivendo um momento de intensa relação de Hilda Hilst com o universo teatral. A obra da escritora tem sido levada em cena com diferentes montagens, e eu acompanho de perto o processo teatral de minha amiga, Rosaly Papadopol. Sei que muitas pessoas vêem a Hilda como pornográfica, mas ela na verdade, é um grande e misterioso baú, donde podem infinitas personas emergir para povoar o grande palco da Arte.
Teatro é um artesanato, um processo ritual, uma comunicação humanamente direta, pelo qual sou apaixonada.
Sempre há espaço para o ator de teatro por excelência e eu torço pelos amigos, como a Rosaly, que lutam não apenas por um espaço dentro do que já está estabelecido, mas tentam traçar novos caminhos, questionam as estruturas existentes, e vão em busca de apoio e orientação para trazer à tona os projetos imaginados.

Rosaly contou que em 1998, em plena madrugada, nossa amiga atriz Imara Reis, ligou empolgada dizendo que havia lido uma entrevista com a Hilda, e percebido quanto o temperamento artístico da Hilst era próximo ao universo da Rosaly. Fiquei imaginando a Imara empolgada, sem se preocupar com o horário, e a Rosaly acordando e se reencontrando com o mundo da Hilda.
Rosaly voltou a ler Hilda, de quem já era grande admiradora, e com um olhar abrangente, optou por trabalhar com a obra da escritora, através do teatro.
Com a ajuda de José Antonio de Souza e Gaspar Guimarães, traçou o perfil literário e pessoal de Hilst, nos seus diversos estilos, com poesia, ficção e teatro, realçando a real dimenssão da obra e alma da escritora.
Rosaly desejosa de se lançar com a obra de Hilda, começou a produção do trabalho em 2005, e tentando criar raízes e asas para voar, luta com afinco, para levar em cena a arte de Hilda Hilst.Na senda da transformação que a arte pode evocar, encontramos eco na obra de Hilda Hilst, que possibilita redescobrir recantos adormecidos.
Vibro para que Rosaly traga à cena tudo o que ela absorveu da obra de Hilda Hilst. Sei que Tália e Melpômena, o símbolo do teatro, as duas máscaras a que ri e a que chora, virão para aplaudir e mostrar que todo o árduo percurso do processo teatral, faz parte das duas faces da mesma moeda.
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008
Tarsila do Amaral

Nessa minha volta a São Paulo, foi muito significativo ver as obras de Tarsila do Amaral, que com toda sua brasilidade, foi representante do movimento modernista, e trouxe renovação para a arte brasileira
A exposição Tarsila Viajante, que fica até 16 de março na Pinacoteca do Estado, aborda a influência das viagens, no trabalho da pintora. Você pode ver na trajetória de Tarsila, pelo tempo e espaço, 35 pinturas e 120 desenhos, incluindo Abaporu, A negra e Antropofagia!
Revivi com Tarsila a busca da identidade brasileira, nas suas “viagens”, apresentada nos seis núcleos da exposição: Anos de formação, Ensaios modernistas, O descobrimento do Brasil, Viagem ao Oriente Médio, Brasil mágico e Viagem a União Soviética.
Um de seus quadros, Abaporu, que serviu como inspiração e síntese do Manifesto Antropófago, criado pelo Oswald de Andrade, comentado aqui no Serenade, quando indignada o vi em Buenos Aires, no MALBA. Agora foi com enorme prazer, que pude ver juntas as três importantes pinturas da artista: Abapuru, A negra e Antropofagia!
“Uma figura solitária monstruosa, pés imensos, sentada numa planície verde, o braço dobrado repousando num joelho, a mão sustentando o peso-pena da cabecinha minúscula. Em frente um cacto explodinda numa flor absurda.” Comentário de Tarsila sobre o quadro Abapuru.
Depois da separação do primeiro marido, Tarsila que passou a morar em São Paulo, dedicava-se ao piano, à composição de versos e à pintura. Depois de ter decidido pelas artes visuais deu um depoimento dizendo: “Por timidez passei a fazer pintura”Tarsila foi apresentada por Anita Malfatti, ao grupo dos Modernista, com a afinidade e amizade entre eles, formou-se o chamado Grupo dos Cinco com Anita Malfatti, Menotti del Picchia, Mário de Andrade e Oswald de Andrade, com quem se casou.
As reuniões desse grupo eram animadas, constantes e tinha a participação de outros artistas da Semana da Arte Moderna.
Tarsila, após seu retorno da Europa, em 1923, trouxe para sua pintura soluções realmente originais, combinando as técnicas do pós-cubismo aprendidas com Andrë Lhote, Albert Gleizes e Fernand Léger, com temas e um colorido profundamente identificados com a cultura brasileira. Podemos reconhecer em suas obras, que Fernand Léger, a marcou profundamente.Sobre sua viagem ao Oriente Médio Tarsila declarou:
“Depois de três meses que passei no Oriente Próximo, turquia, Grécia, Arménia, Palestina; Egito, Chipre, Rhodes, depois do contato mais intimo com a arte Oriental, lembro-me de voltar a Paris , achei as suas vitrinas , na sua maioria, feias pela suas decorações flasas, porque nem tudo que se faz em Paris é bom, como muita gente ainda pensa. A falsidade e o desejo evidente de originalidade me chocaram profundamente”
Sinto-me próxima a Tarsila viajante, que levou de cada lugar que visitou elementos para enriquecer sua vida, não separou o intimo do artístico e descobrindo a si mesma revelou um Brasil moderno.
sábado, 16 de fevereiro de 2008
Jardim da Luz - São Paulo
Depois da exposição “Tarsila Viajante”, fui caminhar no Jardim da Luz, e refletir sobre as maravilhas que acabara de ver. Como os frequentadores do Serenade sabem, nesse jardim encontra-se a sede da Pinacoteca de São Paulo.No Jardim da Luz, onde originalmente foi um jardim botânico, transformado em espaço público no fim do século XIX, você caminha cercado de arte por todos os lados…
Em São Paulo, com sua cultura forte e própria, sentimos a decadência da civilização, eu como paulista desfruto dessa cidade da melhor maneira que posso, e tento reconstituir as sensações que ela suscita. Registro meus passos, na intenção dela conservar sua memória, não perder a alma e sonhar com o futuro.
“Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.”

"Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores."
"Olha: o amor pulou o muro, o amor subiu na árvore em tempo de se estrepar. Pronto, o amor se estrepou. Daqui estou vendo o sangue que escorre do corpo andrógino. Essa ferida, meu bem, às vezes não sara nunca. Às vezes sara amanhã."
"Eu vejo as árvores verdes, rosas vermelhas tambémEu as vejo florescer para nós dois
E eu penso comigo... que mundo maravilhoso
Eu vejo os céus azuis e as nuvens brancas
O brilho do dia abençoado, a sagrada noite escura
E eu penso comigo... que mundo maravilhoso
As cores do arco-íris, tão bonitas nos céus
E estão também nos rostos das pessoas que passam
Vejo amigos apertando as mãos, dizendo: "como você vai?"
Eles realmente dizem: "eu te amo!"
Eu ouço bebês chorando, eu os vejo crescer
Eles aprenderão muito mais que eu jamais saberei
E eu penso comigo... que mundo maravilhoso
Sim, eu penso comigo... que mundo maravilhoso"
domingo, 20 de janeiro de 2008
Turismo Infinito - Fernando Pessoa
No Turismo Infinito em companhia dos hetrónimos, das cartas de amor de Ofélia Queirós, do universo inteiro, viajamos em uma aventura, onde transmutamos nossas emoções, expandimos nosso mundo e ampliamos nosso espaço de reflexão, junto à obra do Fernando Pessoa como todo."O coração, se pudesse pensar, pararia."
Agora em Lisboa, no Teatro Nacional D. Maria II, Turismo Infinito, peça com dramaturgia de António M. Feijó - obra de Pessoa, dos seus heterónimos e das cartas de amor de Ofélia Queirós.
Ricardo Pais, diretor da peça, propõe uma viagem ao universo da vida e obra de Pessoa, com um espetáculo brilhante em suas diversas sínteses, simples, austero, estilizado, e contido.
O ponto de partida de António M. Feijó, o autor da peça, para a criação do espetáculo, foi a existência de “vários textos, inéditos durante muito tempo, nos quais Pessoa põe os heterônimos a falar entre si”.
"Fui educado pela Imaginação, / Viajei pela mão dela sempre, / Amei, odiei, falei, pensei sempre por isso. / E todos os dias têm essa janela por diante, / E todas as horas parecem minhas dessa maneira".
A impactante cenografia concebida por Manuel Aires Mateus, porto infinito onde chegam ou de onde partem o guarda-livros Bernardo Soares, o futurista Álvaro de Campos, o interseccionista Fernando Pessoa e o mestre Alberto Caeiro, exerce uma influência fundamental no efeito que os textos escolhidos adquirem na direção.Em sintonia perfeita, com a direção nesta viagem pessoana, Manuel Aires redesenhou o palco, criando uma visão espacial com sua perspectiva e profundidade, fundamental na estética de Ricardo Pais.
Nesse ecrã negro, vão passando figuras, imagens, personagens criadas por um grupo de atores de alto nível, numa articulação medida e quase neutra.
Com equilíbrio tímbrico alternam-se as vozes e as palavras dos atores, ingrediente fundamental para unidade do espectáculo.
Sublinho João Reis no todo de seu trabalho e o virtuosismo de Emília Sylvestre, no Monólogo da Corcundinha.
“Sou a cena viva onde passam vários actores representando várias peças.”
O trabalho de luz nesse infinito, nesse negro de cujo contorno se perde a noção, mostra-nos corpos fragmentados desvendando o interior dos personagens.Como o espaço cénico é praticamente despido de objectos, opta-se pelas sombras chinesas, jogando com os cículos da cenografia.
A sonoplastia de Francisco Leal cria ambientes sonoros, em apurada elaboração e atmosfera que complementa o trabalho.
Ricardo Pais, em uma obra literária tão complexa e profunda, como a de Fernando Pessoa, consegue a partir dos fragmentos chegar à totalidade, ao Infinito, proporcionando um turismo dentro de nós mesmos, com as mais preciosas e eternas palavras da literatura.
quarta-feira, 9 de janeiro de 2008
Um Teatro sem Teatro
"Um Teatro sem Teatro",apresentada no Museu d'Arte Contemporani de Barcelona, que foi considerada a melhor exposição da Espanha, no ano de 2007, estará em Lisboa no, Museu Colecção Berardo, até 17 de fevereiro.A exposição “Um teatro sem teatro” propõe uma reflexão sobre a influência do teatro no terreno das artes plásticas, suas relações e intercâmbios, nos convidando a ver e a pensar.
Na entrada da exposição, vemos vários documentos relacionados com a influência do movimento dadaísta no teatro, a partir das primeiras décadas do século XX - dramaturgias escritas por artistas como Pablo Picasso, fotografias, programas de teatro e panfletos.
Na etapa seguinte descobrimos documentos históricos do teatro e das artes visuais nos movimentos: dadaísmo, futurismo e surrealismo que revelam suas lutas contra as convenções estabelecidas na época.Prosseguindo na exposição vemos outros trabalhos de: Konstantin Stanislavski,Vsevolod Meyerhold, Antonin Artaud, Samuel Beckett, Jerzy Grotowski.
Tem ainda uma sala com uma máquina cenográfica, do artista polaco Tadeusz Kantor, que foi um dos primeiros artistas a interessar-se por elementos de outras culturas, criando espectáculos com elementos de rituais, danças tradicionais indianas, artes marciais, sempre com intensa relação com o público.
Oskar Schlemmer, está bem representado em um grande espaço dedicado ao Ballet Triádico (dança teatral), com fotografias, máscaras e cartazes, e uma reprodução de uma grande instalação datada de 1927, duas figuras, uma feminina e outra masculine, suspensas do teto e a sala forrada de grandes argolas de madeira.Merce Cunningham, John Cage, Robert Rauschenberg, Andy Warhol, Frank Stella e Bruce Nauman, são alguns dos artistas dos anos 70.
Vemos vários exemplos de "happenings", surgindo desde o início dos anos 60, chegando à arte contemporânea, bem como instalações e performances, nas relações entre artes visuais e o teatro.
Apreciamos no final da exposição, instalações e vídeos de artistas como: Juan Munoz, Bruce Nauman, James Coleman e Dan Graham.Concluimos que existe um lugar entre a experiência e a ação onde se desenvolve a arte em cena através de imagens.
A exposição serve para alimentar a nossa visão interior com ajuda dos elementos e mundos desses artistas, em suas lutas para se libertarem das deformações que os hábitos adquiridos nos impõem.
Saímos de lá, vendo tudo como se fosse a primeira vez, como crianças, sendo originais e autênticos, com nossas particularidades somadas as todas essas influências, onde o nosso artista interior revela-se em toda a liberdade.
quarta-feira, 12 de dezembro de 2007
Centre Pompidou Novos Media 1965-2003- no Museu do Chiado
É sempre bom ir ao Museu do Chiado em Lisboa, melhor agora com a exposição do Centre Pompidou Novos Media , onde os artistas com o uso do vídeo, exploram possibilidades estéticas como instrumento crítico das imagens.
Encontrei vários bonecos de Tony Oursler na exposição, que suspensos em tetos, vãos de escadas, e espaços mortos do circuito, compõem com as luzes monitores e projeções a idéia do inusitado.
Estes trabalhos, vindos do Centre Pompidou de Paris, que tem como proposta serem interativos, são um estimulo a criatividade. Uma viagem no tempo, ao começo da descoberta do vídeo como material mais barato e acessível que o filme e suas possibilidades no campo da experimentação.
A primeira instalação que entrei foi: Present Continuous Past, de Dan Graham. Além de lidar com minha imagem gravada, me via também refletida nos espelhos e no reflexo do monitor a emitir o que já havia sido registrado. Uma forte sensação de alteração dos conceitos espaciais e temporais através das imagens.
Na secção da expo- sição: "Para uma Televisão imagi- nária”, quero citar: Moon is the Oldest TV- de 1965, por ser o trabalho mais antigo e pelo romantismo da idéia, Nam aplicou as interferências magnéticas nos tubos catódicos monitores,interrompendo os sinais para criar na tela da TV, silhouetas que representam as fases da lua.
Gostei das críticas aos conteúdos televisivos de Chris Marker ou Matthieu Laurette; da "televisão ao contrário" de Bill Viola e Valie Export; das relações com as artes visuais exploradas por Vito Acconci.
Gostei ainda, das pesquisas espaciais de Martial Raysse, Bruce Nauman e Global Groove, de Nam June Paik, e de Chris Marker, Immemory, lidando com a memória das imagens.
Quero salientar o trabalho de Pierre Huyghe, que em 1999 produziu The Third Memory, obra em três partes que recupera os recortes de imprensa sobre um assalto a um banco (em 1972), a história inspirou o filme: Um Dia de Cão, com Al Pacino e a memória do assaltante duas décadas depois. E não posso esquecer dos trabalhos que associamos de imediato ao cinema (Jean Luc-Godard e Chris Marker).
Meu lado musical fez eu ter um carinho especial com: Hors Champs, de Stan Douglas , quarteto em concerto de free-jazz com a composição de Albert Ayler- Spirits Rejoice, com a direção integral da rodagem do concerto por Stan Douglas.
Cada vez que revejo, o Arena Quad I and II, de Samuel Beckett, gosto mais. Quatro figuras sem identidade,diferenciados apenas pela cor das suas roupas, encenam uma geometria de cruzamentos de posições sobre um quadrado. Seguem uma regra de circulação, onde a obra instaura um ritmo alucinatório de espectativa que se esgota em cada passo, sendo regido pelas batidas sonoras dos pés. A estrutura, possui dois andamentos: um rápido e a cores, outro lento e a preto e branco, ambos impondo um sentido do absurdo, tornando a ação uma redundância em si mesma. A cadência de todos os movimentos e a imposição a um esquema tão marcado pela quadratura, esgotam a ação e o papel das figuras, provocando uma abstração espacial cognitiva e sensorial.
Em Feature Film,de Douglas Fordon,o artista toma como ponto de partida a banda sonora do filme vertigo, de Alfredo Hitchcock, composta por Bernard Herrmann. “Não como uma apropriação, como é frequentemente em muito dos seus trabalhos, mas na realização de um filme sobre a condução dessa mesma banda sonora pelo maestro James Conlon com a orquestra da Ópera Nacional de Paris.
A obra consiste num longo bailado do rosto e das mãos do maestro, na condução da banda sonora original, ao longo de 128 minutos, enquanto que num canto da mesma sala é exibido num monitor TV a versão integral do filme Vertigo.”
Fiquei absorta com os close-ups conjugados com a densidade dramática da música e da imagem.
Senti vontade de ter mais experiên- cias em vídeo, de ser mais espontânea no trabalho, de ser mais inovadora em tudo, de ser mais participativa no mundo das artes e de convidar todos os amigos a cultivar a liberdade na criação.
Encontrei vários bonecos de Tony Oursler na exposição, que suspensos em tetos, vãos de escadas, e espaços mortos do circuito, compõem com as luzes monitores e projeções a idéia do inusitado.
Estes trabalhos, vindos do Centre Pompidou de Paris, que tem como proposta serem interativos, são um estimulo a criatividade. Uma viagem no tempo, ao começo da descoberta do vídeo como material mais barato e acessível que o filme e suas possibilidades no campo da experimentação.
A primeira instalação que entrei foi: Present Continuous Past, de Dan Graham. Além de lidar com minha imagem gravada, me via também refletida nos espelhos e no reflexo do monitor a emitir o que já havia sido registrado. Uma forte sensação de alteração dos conceitos espaciais e temporais através das imagens.
Na secção da expo- sição: "Para uma Televisão imagi- nária”, quero citar: Moon is the Oldest TV- de 1965, por ser o trabalho mais antigo e pelo romantismo da idéia, Nam aplicou as interferências magnéticas nos tubos catódicos monitores,interrompendo os sinais para criar na tela da TV, silhouetas que representam as fases da lua.Gostei das críticas aos conteúdos televisivos de Chris Marker ou Matthieu Laurette; da "televisão ao contrário" de Bill Viola e Valie Export; das relações com as artes visuais exploradas por Vito Acconci.
Gostei ainda, das pesquisas espaciais de Martial Raysse, Bruce Nauman e Global Groove, de Nam June Paik, e de Chris Marker, Immemory, lidando com a memória das imagens.
Quero salientar o trabalho de Pierre Huyghe, que em 1999 produziu The Third Memory, obra em três partes que recupera os recortes de imprensa sobre um assalto a um banco (em 1972), a história inspirou o filme: Um Dia de Cão, com Al Pacino e a memória do assaltante duas décadas depois. E não posso esquecer dos trabalhos que associamos de imediato ao cinema (Jean Luc-Godard e Chris Marker).
Meu lado musical fez eu ter um carinho especial com: Hors Champs, de Stan Douglas , quarteto em concerto de free-jazz com a composição de Albert Ayler- Spirits Rejoice, com a direção integral da rodagem do concerto por Stan Douglas.
Cada vez que revejo, o Arena Quad I and II, de Samuel Beckett, gosto mais. Quatro figuras sem identidade,diferenciados apenas pela cor das suas roupas, encenam uma geometria de cruzamentos de posições sobre um quadrado. Seguem uma regra de circulação, onde a obra instaura um ritmo alucinatório de espectativa que se esgota em cada passo, sendo regido pelas batidas sonoras dos pés. A estrutura, possui dois andamentos: um rápido e a cores, outro lento e a preto e branco, ambos impondo um sentido do absurdo, tornando a ação uma redundância em si mesma. A cadência de todos os movimentos e a imposição a um esquema tão marcado pela quadratura, esgotam a ação e o papel das figuras, provocando uma abstração espacial cognitiva e sensorial.
Em Feature Film,de Douglas Fordon,o artista toma como ponto de partida a banda sonora do filme vertigo, de Alfredo Hitchcock, composta por Bernard Herrmann. “Não como uma apropriação, como é frequentemente em muito dos seus trabalhos, mas na realização de um filme sobre a condução dessa mesma banda sonora pelo maestro James Conlon com a orquestra da Ópera Nacional de Paris.A obra consiste num longo bailado do rosto e das mãos do maestro, na condução da banda sonora original, ao longo de 128 minutos, enquanto que num canto da mesma sala é exibido num monitor TV a versão integral do filme Vertigo.”
Fiquei absorta com os close-ups conjugados com a densidade dramática da música e da imagem.
Senti vontade de ter mais experiên- cias em vídeo, de ser mais espontânea no trabalho, de ser mais inovadora em tudo, de ser mais participativa no mundo das artes e de convidar todos os amigos a cultivar a liberdade na criação.
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