
Logo depois entra o personagem que é a mãe de Peer, Aase, viúva pobre que tudo faz para o sustentar, compondo juntamente com ele com tanta maestria, que eu fui entrando na poética surreal, e vivendo as aventuras daquele conto de fadas como se fizesse parte dele.

Durante o espetáculo, havia uma galeria infinita de personagens e seres estranhos: para além da mãe de Peer, e da eterna apaixonada Solveig, havia macacos, doentes psiquiátricos, ladrões, a Esfinge do deserto, homens e mulheres troll, gnomos, beduínos bruxas, e escravas.
Os atores compunham os diversos cenários com muita criatividade, entrando com apetrechos que ganhavam diferentes signos na mesma cena. Víamos também o cenário sair com eles, e havia cenas que saltavam do palco para invadir a platéia, anulando a diferença entre os dois espaços.

Henrik Ibsen inicialmente escreveu um poema dramático, chamado: “monstro”, baseado em alguns contos de fadas noruegueses, que não era para ser representado, mas como foi considerado uma obra-prima da literatura escandinava, o próprio Ibsen resolveu adaptar o seu poema para o palco,com o nome de Peer Gynt.
“Tenho ainda a mencionar que hoje lhe envio o manuscrito dos primeiros três atos do meu novo trabalho, intitulado Peer Gynt, um poema dramático. Agora estou curioso por ouvir se lhe agrada. Eu próprio espero o melhor. Não sei se lhe interessa, mas Peer Gynt existiu realmente. Vivia em Gudbrandstal, provavelmente no início deste século ou no fim do anterior. O seu nome não foi ainda esquecido pelo povo de lá em cima, mas sobre os seus feitos não se sabe muito mais do que aquilo que se pode encontrar nos contos de fadas noruegueses, de Asbjornsen”

Apesar de Zadek ter iniciado sua carreira em Inglaterra, e seu repertório e estética ficarem longe da tradição alemã, ele é cultuado e venerado na Alemanha. No ano passado ele recebeu o Premio Europeu de Teatro.

“Fossemos infinitos
Tudo mudaria
Como somos finitos
Muito permanece.”