Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

Fundação José Saramago

Moro perto da Casa dos Bicos, fico sempre supreendida, quando passo em frente a ela e, vejo turistas fotografando a fachada, sem poder entrar. Curiosos, tentam apreciar os vestígios de épocas passadas, espreitando pela janela. Já tentei entrar, para ver as estruturas, que remonta às primeiras ocupações do espaço, um pedaço importante da muralha fernandina, tanques romanos, destinados a conserva de peixes e restos de cerca moura, mas quase nada consegui, a não ser apreciar ao longe enquanto conversava com a recepcionista.
“Ao contrário do que algumas pessoas mal-intencionadas quiseram fazer acreditar, a casa dos Bico, que vamos ocupar, não está aqui simplesmente para glorificar a vida ou a obra do senhor Saramago, está aqui para ser útil”. Disse Saramago, em visita guiada a Casa dos Bicos, onde será instalada a Fundação com seu nome.
José Saramago, pretende que as dependências da Fundação, situada na Casa dos Bicos, sejam colocadas ao serviço da cultura. Com direito a conferência, exposições, filmes, recitais, cursos, seminários, e se torne um pólo cultural da cidade de Lisboa
A Casa ficará aberta ao público e, o Palácio dos Diamantes, como Brás de Albuquerque, que construiu, queria que fosse chamada, será para todos, pois os primeiros pisos deste edifício serão espaços públicos.
Quem sabe agora, quando olharmos para os bicos da fachada, eles nos remetam aos Diamantes…

Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

Poesia e Contos em Lisboa

No próximo dia 30, às 18h30 no Salão Nobre do Teatro Nacional D. Maria II, teremos Poesia e Contos, de três autores luso-americanos do século XX, Charles Reis Felix, Frank X. Gaspar e Katherine Vaz.
A leitura, será coordenada por Natália Luiza, com os atores: Ana Margarida Pereira, António Rama, José Neves e Natália Luiza.
Tenho amigos no projeto e,acredito muito na qualidade do trabalho deles!

Charles Reis Felix
Nascido em 1923, em New Bedford, Massachusetts, é filho de emigrantes portugueses. Estudou na Universidade do Michigan (1941-43) e foi chamado ao serviço do exército americano. Após a guerra, recebeu um bacharelato em História, pela Universidade de Stanford, em Palo Alto. Professor do ensino básico durante 31 anos, publicou o primeiro livro, Crossing the Sauer, em 1945, considerado pela crítica um dos melhores livros de memórias de guerra. Publicou ainda Da Gama, Cary Grant, and the Election of 1934, Through a Portagee Gate e Tony: A New England Boyhood.

Frank X. Gaspar
Poeta luso-americano, nasceu em Provincetown, Massachusetts, em 1946. Professor no Long Beach City College, publicou poesia em vários jornais e revistas. A sua poesia foi compilada na antologia Best American Poetry 1996 and 2000. Da sua obra, destacam-se os seguinte livros de poesia, quase todos premiados: Of a Thousand Blossoms (2004); The Holoyke (1998); Mass for the Grace of a Happy Death (1994); A Field Guide to the Heavens (1998) e a novela Leaving Pico (1999). Acaba de publicar um segundo romance intitulado Stealing Fatima.

Katherine Vaz
Nascida em 1955, publicou novelas, contos e literatura infantil. Colaboradora de várias publicações, frequentou o curso de Escrita da Universidade da Califórnia, em Irvine. Leitora na Universidade de Harvard, é autora de uma obra premiada, de onde se destaca Saudade 1994), Mariana (1996), traduzida em seis línguas, a antologia Fado & Other Stories (1997) e, mais recentemente, Our Lady of the Artichokes and Other Portuguese-American Stories (2007). Foi seleccionada como uma das Top 50 Luso-Americanas do século.

Quinta-feira, 28 de Maio de 2009

Divinas Desventuras


Quero reunir os amigos, no próximo dia 30, na Livraria Cultura, para a leitura e lançamento do livro: “Divinas Desventuras”. Estão todos convidados!
Sim; vamos "brincar de deuses" , com as histórias da mitologia grega, lendo os contos: Prometeu, Icaro e Sísifo.
A amiga Heloisa Prieto, uma das principais autoras da literatura infanto-juvenil brasileira, lança agora: “Divinas Desventuras”.
No livro, onde o mundo dos deuses e heróis da mitologia grega, é contada por Cronos(deus do tempo),nem tudo dá certo.
Heloisa resolveu escrever sobre os mitos mais trágicos, porque acredita que: “há muito o que se refletir sobre o aprendizado que advém dos insucessos e perdas, pois eles nos remetem à própria condição humana. Embora os finais não sejam felizes, há lirismo, emoção e suspense nas narrativas."
Trabalhei com o método que venho aplicando há dois anos: “ O Livro em Cena”. Não optando pela, adaptação das narrativas, mas pela leitura integral do texto inteiramente transposto para o palco.
Pedro Schwarcz querido companheiro de leitura, Ramiro Suárez, impecável no trabalho de edição, Gerald McDermott e Marcell Jankovics, importantes complementos nos vídeos, e a Heloisa, com seu inspirador livro, a integrar esses profissionais brilhantes, esperam por vocês!

Segunda-feira, 4 de Maio de 2009

Augusto Boal

Agradeço o revolucionário homem de teatro, Augusto Boal, que com sua prática, formulou teorias a respeito de seu trabalho, tornou-se uma referência do teatro brasileiro, e influenciou a literatura teatral no mundo inteiro.
Principal liderança do Teatro de Arena de São Paulo nos anos 1960, Boal iniciou uma nova etapa do teatro brasileiro. Com engajamento político, ele buscou expressar o inconformismo do povo e da juventude, em sua luta para a transformação da sociedade.
Criador do teatro do oprimido, no início dos anos 70, ele chamava de Teatro Jornal: que ensinava a fazer teatro a partir de jornal e procurava dar ao espectador não um produto acabado, mas os meios de produção.
Ele também desenvolveu o Teatro Invisível, na Argentina, que é uma forma de utilizar o teatro dentro da realidade sem revelar que é teatro: os espectadores intervêm na cena como se ela fosse um fato real.
Boal, que foi nomeado como embaixador mundial do teatro pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura),em março deste ano, disse:
“O Teatro do Oprimido é um teatro sem dogmas e realizado por meio de um conjunto de exercícios que ensinam o ser humano a utilizar uma ferramenta que ele já possui e não sabe. O homem traz esta característica teatral dentro de si. O que este tipo de teatro faz é liberar esta capacidade e ensinar à pessoa como dominá-la.”
“O Teatro do Oprimido, assim como a pedagogia, filosofia, psicoterapia e a política, pode ser praticado em culturas totalmente diferentes, tanto no Brasil como na África. Já existem grupos que o praticam na África, no Japão, em Hong Kong, na Coréia e em praticamente todos os países da Europa. A própria cultura brasileira é especialmente promissora para esta prática, já que não pode ser caracterizada como uma, mas na verdade milhares de culturas.”

Boal,você não morreu,está vivo em cada ator, em cada teatro, em cada estréia.
Boal, merda para você!

Terça-feira, 17 de Março de 2009

Ver em pintura, Ver a pintura, Ver a, Vera

Ser em pintura, ser a pintura, alterar, inteirar.
Se não podes me ver nem pintada, serei arteira, matreira em cada recanto desse museu.
"Não te posso ver nem pintado", exposição permanente do Museu Colecção Berardo, propõe um livre percurso pela figuração na arte contemporânea, tendo a figura humana como protagonista.

“Um retrato pintado com a alma é um retrato, não do modelo mas do artista.”

Na foto, uma das obras em exposição: Revelations de Damien Deroubaix .

As renovações no museu passam ainda pela inauguração de uma nova exposição temporária, "Pipedream" ou “sonho irreal e fantástico”. Com esse trabalho, o artista francês Alexandre Perigot apresenta desde pinturas de poços de petróleo em fogo até uma sensual bailarina.


Diálogo com os auto-retratos de Pedro Cabrita Reis e sua pintura espelho.

“…vejo que por detrás das órbitas dos seus olhos se estende um mundo inexplorado, mundo de coisas futuras,
e nesse mundo qualquer lógica está ausente.»

Interagi com a experiência de luz, projeção e imagem-movimento de Ann Veronica Janssen.


Apreciei ainda, na exposição: Andy Warhol com a sua Judy Garland, Francis Bacon com o “Édipo e a Esfinge Segundo Ingres, Giorgi Morandi com sua Natura Morta, David Hockney com seu “Quadro Evidenciando Tranquilidade”, Philip Guston (sem título), e Paula Rego: Vanitas, um tríptico inspirado num conto de Almeida Faria.
As vezes fico na frente de um quadro e tenho medo de cair dentro dele, e sentir todas emoções do pintor, revelar o seu invisível, traduzir o seu mundo…
Foi especial o acesso aos espaços mágicos da poesia dessas pinturas e o contracenar com a magia desses artistas.
"A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso cante,chore, dance e viva intensamente antes que a cortina se feche" (Charles Chaplin)

Sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2009

“A Tempestade” de William Shakespeare

A peça mais visual que Shakespeare escreveu, um pano preto, um livro, três atores, e temos: A Tempestade.
Tudo se resume a um pano preto: as ondas, o mar revolto, as velas do navio, o manto dos espíritos demoníacos, um vestido comprido, a colcha de uma cama, e mais, muito mais... Realmente, um pano preto pode ser tudo o que a imaginação permitir.
A peça começa com uma forte tempestade a afundar o navio, onde segue Próspero, o Duque de Milão. Ele é arrastado pelo mar, vai parar a uma ilha encantada, onde acontece as coisas mais extraordinárias.


Na última peça escrita por William Shakespeare,A Tempestade, que assisti no Chapitô (Lisboa), todos os personagens, ficam submetidos à vontade de Próspero. Vemos o que acontece num mundo de sonho, quando a inocência, o amor, o medo, a malvadez e a vingança se confrontam com o poder desse grande mágico.
Como nessa peça, Shakespeare deixa muitas coisas em aberto, que podem ter várias interpretações, a direção do inglês John Mowat, usufruiu disso com liberdade e sensibilidade, tornando a peça leve e cômica.
Os atores nessa história de magia, monstros e espíritos se desdobram no palco despido, em várias personagens, com a expressão corporal explorada em toda sua potencialidade.
Vale a pena ir conferir!

Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2009

World Press Photo 2009

O grande acontecimento na área do fotojornalismo do mundo, World Press Photo 2009, premiou 63 fotógrafos em 10 categorias. A entrega dos prêmios ocorre no dia 2 de maio em Amsterdã, na Holanda. As fotos serão expostas em mais de 100 localidades em todo o mundo.
O principal prêmio, o de melhor foto do ano, foi para o americano Anthony Suau, com o registro de um momento dramático provocado pela crise econômica nos Estados Unidos.
Um policial faz uma inspeção em uma casa de Cleveland, após os proprietários serem despejados. (reportagem da revista Time)





O primeiro prêmio na categoria individual de Arte e Entretenimento foi para a foto da modelo correndo de Giulio Di Sturco.






O brasileiro Luiz Vasconcelos foi o vencedor da categoria "Notícias Gerais" (jornal A Crítica, de Manaus). A foto mostra uma mulher indígena fugindo de um batalhão de policiais, em uma disputa por terras.



Um instante dos Obama
O casal faz uma pausa durante a última campanha eleitoral. Com esta imagem, Callie Shell, ganhou o primeiro prêmio na categoria de Noticias.

Das fotos divulgadas escolhi essas, mas para quem estiver interessado em ver mais, é só recorrer a internet, ou aguardar a exposição. Vale a pena!

Quarta-feira, 4 de Fevereiro de 2009

A Terra gira desde há 3500 milhões de anos


«A Terra gira desde há 3500 milhões de anos. A humanidade vive desde há um milhão de anos. A história das civilizações humanas dura desde há 10.000 anos sem que seja contínua ou evolutiva. A parte civilizada, artística, noética, literária, não constitui mais que uma fracção imperceptível da experiência da espécie Homo. Imperceptível pela própria espécie em geral. Houve apenas algumas obras, alguns objectos, alguns sons, alguns livros, alguns muros vislumbrados por alguns homens que se inclinam por vezes, da frente para trás.»
[in As Sombras Errantes, de Pascal Quignard, trad. Maria da Piedade Ferreira, Gótica, 2003]

Sexta-feira, 30 de Janeiro de 2009

Alguns momentos com Nuno Rebelo

“Na medida em que sou artista, quero um mundo onde a beleza seja o vértice da pirâmide.”

A inteligência artística não fica indiferente às descobertas do Nuno, que liberta nossos ouvidos e impõe um novo sentir.
Gosto do aspecto questionador no trabalho do Nuno em que ele recorre às composições experimentais de música para performances, dança, teatro e cinema.
Quando vim para Lisboa, em 1988, conheci o som do Nuno, com o grupo: Mler Ife Dada, onde ele foi reconhecido como referência de som progressivo. Depois fui assistir, creio que tenha sido em 1993, no Chapitô, o Poliploc Orkestra, que companhava com música ao vivo os filmes mudos: Nosferatu, de Murnau e Douro, Faina Fluvial, de Manuel Oliveira. Havia toda uma ambientação teatral e o Nuno regia tudo, com uma estética nova e de fresca inspiração.


Gosto de rever certas passagens da vida, unir passado e presente, o tempo não degrada, pelo contrário, enriquece-a num esforço de perfeição contínua, parece ao acaso, mas é intencional.
No final do ano passado esse“acaso intencional” levou-me ao vídeo:
“it will be what we make it” “as part of “Performing the space “



E agora, Janeiro de 2009, fui assistir no primeiro dia do festival, dedicado à novas formas de fazer jazz, o Nuno Rebelo e Gregor Asch, aka Dj Olive, no Cultugest.
Gosto de procurar novas fontes de inspiração , que esteja em ressonância com minhas afinidades... O Nuno desperta essa busca em meu mundo.
Nessa semana fomos Gustavo e eu jantar na casa do Nuno e da Cathrin. Creio que não consigo por em letra redonda e por inteiro, esse nosso encontro que foi saboreado com ética, estética e dietética.
Foi bom conversar saboreando as massas deliciosas da Casa da Pasta que levamos (www.casadapasta.com) bebendo vinhos que a Cathrin gentilmente escolheu e uma sobremesa que o Nuno fez, hummm...
Em meio às observações artísticas e sensíveis da Cathrin, e ao humor inteligente do Gustavo, o Nuno mostrou-nos as partituras e o cd do trabalho de composição, que fez para o coreografo Mark Tompkins, com quem trabalha regularmente desde 1994. Adorei!
Estar no estúdio do Nuno a conversar, foi uma hora mágica. Acho cada dia tão único, tão virgem, que vivo em pleno o sabor do momento.
Fui embora com a boa sensação de preservar a sinceridade em relação ao sentimento profundo, nas amizades que estimulam a criação e no sentir até o fim da vida o ardor pela arte que nos leva a aprender e experimentar.

Sábado, 10 de Janeiro de 2009

Marionetas da ilha de Shikoku












Hoje no Museu do Oriente, Lisboa, vi essas marionetas, que servem para que os deuses apareçam durante o Ano Novo.
Na ilha de Shikoku, Japão, o marionetista ia de casa em casa, com essas quarto marionetas, que eram manipuladas para executarem uma dança frente aos fiéis. Representavam os três Anciãos (Okina, Senzai e Sanbaso) e Ebisu.
Okina e Senzai evocam fertilidade enquanto Sanbaso afasta os maleficcios. Ebisu é uma das sete divindades da felicidade.
Sob a regência do Sol, 2009 é o ano da consciência, alegria e determinação.
Na mitologia, na arte e na literatura, o Sol representa um princípio que transcende tempo e espaço.
Viva 2009!
2009 Viva!

Quinta-feira, 1 de Janeiro de 2009

"Para ser grande, sê inteiro:nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive."

Inove em 2009, com Amor, Alegria e Arte!

Quarta-feira, 3 de Dezembro de 2008

Palestra de Bob Wilson

Disse o poeta Drummond, que de tudo fica um pouco, da palestra de Bob Wilson, realizada no Masp na semana passada, ficou mais do que um botão...
Ficou o contagio pela sua criatividade e reflexão artística. “Se você sabe o que está fazendo, não faça. É necessário questionar o que se está fazendo"
De tudo ficou um pouco ... Ficou muito dos relatos, desse dramaturgo,encenador,artista plástico, homem da imagem que revolucionou e exerceu grande influência sobre o teatro brasileiro. Entendi que a melhor maneira de conhecer o trabalho dele é passar pela experiência de vê-lo.
Ficou o espírito crítico de Bob Wilson, que entre outras coisas disse que o teatro feito hoje em dia é simplesmente "um texto decorado" e ressaltando a importância do trabalho corporal do ator: “Quanto mais você repete o trabalho, mais livre se é. Como andar de bicicleta. Quando se aprende, você faz sem pensar".

"Mas de tudo fica um pouco...
Faço o espetáculo primeiro sem palavras e acrescentamos as palavras mais tarde". "Elas têm de vir deles, não podem ser algo mecânico."
“O meu trabalho é contra o naturalismo é algo apresentado formalmente. Desde o início e até hoje eu sempre tive interesse no movimento que existe dentro do retrato.
Eu sempre começo o trabalho em silêncio, muitas vezes quando estamos muito quietos, nós nos tornamos muito mais sonoros, do que quando fazemos muitos sons. Quando estamos imóveis, nós temos mais consciência do movimento do que quando estamos nos movimentando. O vídeo-retrato lida com essa imobilidade e com o ouvir o silêncio.”

Como de tudo fica um pouco... guardei essa estória que Bob Wilson contou:
Eu fiz um vídeo-retrato de uma pantera negra sentada em uma mesa. Ela tinha uma corrente em torno do pescoço, como se o dono quisesse tira-la. Filmamos com cerca de 65 técnicos no estúdio, O dono disse: pode tirar a corrente, mas eu não sei se todos gostariam de ficar na sala com uma pantera sem a coleira, cerca de dois terço dos técnicos disseram que não ficariam com a pantera sem a coleira, então alguns de nós ficamos. Depois de um certo tempo a pantera se acalmou, se reclinou sobre a mesa, nós tiramos a coleira, o dono ficou atrás dela e disse: se a pantera pular da mesa e correr em sua direção não se mova.
Normalmente eu não falo no estúdio, não me movimento e nem as pessoas com quem trabalho, é tudo feito em silêncio. A pantera ficou sem a coleira por cerca de meia hora sem se mover e também ninguém se moveu no estúdio. O que foi notável nessa meia hora é que de certa forma, todos nós éramos como a pantera, respirávamos juntos, ouvíamos juntos, era como se houvesse uma única entidade naquela sala. Não estávamos ouvindo somente com o nosso ouvido, mas como a pantera ouve, como o seu próprio corpo!
Vale a pena conhecer o trabalho do Bob Wilson, pesquisar um pouco mais… Ficou da palestra o que criou ressonância mais forte em meu mundo… “Se de tudo fica um pouco, 
mas por que não ficaria 
um pouco de mim?”

Sexta-feira, 21 de Novembro de 2008

Meredith Monk e o Vocal Ensemble

"I work in between the cracks, where the voice starts dancing, where the body starts singing, where theater becomes cinema."

A semana passada foi dedicada a Meredith Monk, com espetáculo, palestra e o workshop: “Voz dançante, corpo cantante”, com Meredith e membros de seu Vocal Ensemble.
Sempre que ouvia a Meredith Monk cantar, pensava como seria bom, trabalhar, conversar, conviver com ela, mas parecia tão distante essa hipótese… Você pode imaginar como gostei de viver essa experiência.
Foi muito gratificante o encontro com Meredith Monk, Theo Bleckmann, Ellen Fisher, Katie Geissinger e Ching Gonzalez, pelos preciosos momentos em que eles compartilharam generosamente suas técnicas artísticas.

A energia contagiante do Vocal Ensemble nos estimulou, e como resposta a seus diferentes exercícios, eles tiveram a completa entrega do grupo com cerca de trinta profissionais da area de música, teatro, e dança.
Descobri no convívio com o Vocal Ensemble, que a procura deles pelo mistério e mágia vem da disciplina e humildade. Foi intenso, profundo e envolvente o encontro com a chamada: “técnica vocal extendida” e “performance interdisciplinar” da Meredith Monk.
Aprendi que a voz não é apenas um lugar de palavras e notas: é um lugar em expansão onde todas as regras podem ser eliminadas e tudo pode começar de novo.

A técnica do Vocal Ensemble criou uma abertura para descobrir e entrelaçar novos modos de percepção. A voz humana foi o foco de todas as nossas criações, com a orientação dos integrantes do Vocal Ensemble. Dançamos com a voz, e descobrimos como esse instrumento que tem cor, género e paisagem, não precisa de palavras.
Na palestra da Meredith: “A Arte como Prática Espiritual”, ela falou com muita intimidade, já que na plateia conviviam as pessoas que estavam no workshop e a equipe do Dharma/Arte Produções.

Meredith começou por enfatizar que a música é o coração, o centro a força do seu trabalho, que abrange o espaço entre várias artes .A música sempre fez parte de sua vida, com músicos na família desde o bisavô, nasceu por acaso em Lima, capital do Peru, porque sua mãe, cantora, andava em tourné.
Falou do seu espetáculo,"Impermanência": “O que espero é que alguém seja transportado durante uma atuação. Que de alguma forma seja transformado. Cada pessoa é diferente, uma audiência é só um grupo de indivíduos, mas no mundo em que vivemos a atuação ao vivo é uma das poucas situações onde estamos todos no mesmo tempo e no mesmo espaço, e isso é muito preciso.”
Contou que aprendeu música através do corpo, começou com um treinamento da visão, juntando as imagens.Como seus interesses eram: teatro, música, movimento, um dia ela teve intuição de juntar tudo: voz, imagem e movimento. Começou fazendo performance em galerias e assim fez a síntese para seu trabalho de fusão.

“Sempre pensei que fazer arte é como caminhar até a beira de um despenhadeiro, corer o risco e saltar. No começo de uma nova obra ou de um dia de trabalho está o desconhecido. Ser artista é questionar, vagando pela escuridão apenas pressentindo o que se manifestará, é não ter certeza, é tolerar o medo. Quando a curiosidade e o interesse se tornam mais presentes que o desconforto, conseguimos apreciar o mistério, e a exploração se torna vivida e vibrante, Então de fato ultrapassamos o medo, e há sentido de descoberta”

Para concluir essa viagem, no sábado fui assistir ao espetáculo, “Impermanência”: uma celebração da vida e reflexão sobre a morte. Surpreendente do começo ao fim, Monk começa a cantar sozinha à capela, e depois entra seu iluminado conjunto de cantores-dançarinos e músicos. impermanência é uma evocação da passagem do tempo, expressa pela música e pela dança. Um universo em permanente mutação, que se aplica à linguagem multidisciplinar do espetáculo, fazendo da síntese poética uma jornada espiritual.

Terça-feira, 18 de Novembro de 2008

A Capela Sistina de Miguel Barceló



Hoje em Genebra, foi inaugurada a sala do Palácio das Nações Unidas, que inclui em sua cúpula uma obra do Miguel Barceló.
Durante mais de nove meses Miquel Barceló, pintou a sala dos Direitos Humanos da ONU em Genebra. Os 1.400 metros quadrados do teto branco ficaram inundados de cores!

Nas fotos você poderá perceber um pouco da trajetória, do processo do pintor trabalhando.



Os jorros de pintura foram cobrindo a caverna-cúpula...

"Nada melhor que a arte como mensagem universal para expressar os valores e princípios que inspiram as Nações Unidas", disse Juan Carlos, rei da Espanha.




Barceló explicou que a caverna simboliza o primeiro local de encontro dos humanos, a grande árvore africana sob a qual as pessoas se sentavam para falar e o único futuro possível: o diálogo. Sobre o mar, o pintor disse aos jornais espanhois, que é a referência ao passado. "O mar é a origem das espécies e a promessa de um novo futuro: emigração, viagem".




A Capela Sistina do século XXI, consiste em um mar de cores repleto de estalactitas, que parecem saltar aos olhos do espectador, segundo Barceló.
Há muita polêmica em torno da obra, porque a sala custou cerca de US$ 30 milhões,e foi custeada por empresas e pelo governo da Espanha em plena crise.








Olha só o ar de satisfação do Barceló, ao apreciar o efeito de sua pintura... Parece que ele queria levar sua pintura contra a gravidade ao extremo. Também gostei muito de ficar olhando essas fotos... Agora quero ter o privilégio de ver a obra de perto, imagino que ela marcará uma época!

Segunda-feira, 20 de Outubro de 2008

Liv Ullmann in São Paulo

Liv Ullmann que veio a São Paulo, especialmente para a abertura de uma mostra em sua homenagem, falou sobre sua experiência como atriz e diretora, em seus 40 anos de carreira.

Com profissionais de teatro, e jovens cineastas na platéia, Ullmann, ao lado de Karin Rodrigues e o consul da Noruega, começou dizendo: Vou falar de meu Curriculum… todos riram…"Acho que sou muito divertida, mas as pessoas não me vêem assim, acham que sou muito séria. Queria muito fazer uma comédia, mas ninguém nunca me convidou".

Ullmann, continuou contando sobre sua carreira, dizendo que viveu anos maravilhosos no teatro, onde começou a atuar em 1957, interpretando grandes personagens.
Contou que o seu primeiro encontro com Ingmar Bergman, quando estava acompanhada de Bibi Andersson, parecia um filme de tão mágico. Bergman escreveu o roteiro do enigmático Persona, a partir do momento que percebeu a intensa semelhança, de seus rostos e suas personalidades, e assim ela conquistou seu primeiro papel de destaque no cinema.
Ullmann que estrelou nove filmes de Bergman, entre eles "Gritos e Sussurros, disse que ele "sabia captar os olhares e as atitudes dos atores".
Foi somente em 1992 que a atriz lançou-se como diretora de longas-metragens; dirigiu dois filmes com roteiros do Bergman. “Os atores entregam o coração para você e isso é um previlégio. Aprendi a conquistar e conhecer pessoas maravilhosas para trabalhar.”

“Saraband é um filme muito forte, e autobiográfico como todos os filmes de Bergman, não que sejam cópias de sua própria vida. Devo dizer que nosso reencontro foi natural, como regressar a terra natal… Quando ele foi embora sabia que era o ultimo filme que faríamos juntos, e que não iríamos mais nos ver. Ele foi para sua ilha e nunca mais voltou, mas disse que voltaria de alguma forma, e que não seria uma coisa assustadora…”
Ullmann com os olhos brilhando continuou: “Um dia, saudosa perguntei a mim mesma: -onde está meu marido?” Ouvi a voz do Bergman: “-Olhe para a mesa” -“-“-Eu olhei e tinha um pássaro! Ele era o Ingmar, ele pousou na mesa e ficou.” Emocionada falou do cineasta, como seu grande amigo, companheiro sentimental e pai de sua filha, a escritora Linn.
UIllmann, com sabedoria de grande artista que captou de obra, em obra, e um nível de entrega raro, fez vibrar a platéia que agradeceu aplaudindo demoradamente!

Terça-feira, 30 de Setembro de 2008

"As Palavras” de Jean-Paul Sartre

Jean-Paul Sarte, em “As Palavras”, único registro autobiográfico do autor, conta sobre os seus primeiros contatos com a literatura. Nesta mágica lembrança de sua infância, ele relata suas primeiras dúvidas e crises existenciais. Escreve sobre o relacionamento familiar, com sua mãe em especial, a quem considerava uma irmã, e com seu avô, figura importante na formação de sua personalidade.

Nesse fragmento de “As Palavras”, Jean-Paul Sartre, oferece um alento onde as palavras abrem passagem para o vídeo.

Terça-feira, 26 de Agosto de 2008

Wim Wenders


Fui assistir na sexta feira passada, uma palestra no Masp com o cineasta Wim Wenders, que foi sabatinado, entre outros, pelo cineasta Walter Salles e pelo jornalista Alcino Leite Neto.

Wenders que renovou a linguagem cinematográfica em suas releituras dos clássicos americanos, persegue desde seu primeiro longa-metragem: o deslocamento, a fuga, a incomunicabilidade e a solidão. Influências apreendidas, possivelmente, das pinturas do americano Edward Hopper, referência importante no cinema de Wenders.

Logo no início da sabatina, o cineasta alemão fez menção ao arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer, que foi um dos introdutores da idéia de Brasil para ele. Comentou que foi apaixonado pelo trabalho do arquiteto e que ficou impressionado com a idéia de construir uma cidade no meio da selva, assim era apresentada a obra na Alemanha.
Contou que quando jovem, começou sua formação particular em cinema, na cinemateca de Paris, lugar onde era mais barato e quente passar o tempo, por conta disso, assistiu a mais de mil filmes, isso antes de ser aceito para estudar na recém-inaugurada: Escola Superior de Cinema e Televisão de Munique.





Wim Wenders comentou que os cineastas que mais o influenciaram, tinham um forte sentimento em relação a geografia, entre eles o japonês Yasujiro Ozu, o brasileiro Glauber e o norte-americano John Ford. Ele que considera viajar muito interessante para a mente, porque nos torna mais vivos, disse que unificar as duas vertentes: viajar e filmar, faz com que você viva e filme as estórias.
Disse ainda que os filmes podem: transportar as pessoas para outros lugares, nos fazer mergulhar em outros Paises e nos ajudar a descobrir locais e culturas específicas.

Com a experiência de mais de 40 filmes realizados, Wenders disse que hoje está bastante otimista em relação ao futuro do cinema e ressaltou as vantagens das novas tecnologias. Disse que os recursos digitais expandiram a linguagem e o vocabulário do cinema, além de permitir aos jovens diretores uma liberdade muito maior do que tiveram os diretores de sua geração.
Acrescentou que gostaria de ser um jovem cineasta agora e descobrir uma verdadeira voz com as novas tecnologias. Sou um entusiasta com as novas possibilidades, disse acrescentando, que o mundo de hoje não pode ser tratado com o vocabulário antigo.

Wenders chegou a conclusão de que o estilo de produção e narração dele não combinava com a forma de trabalho da fábrica de sonhos comercial norte-americana. Desabafou quando contou sobre sua primeira experiência hollywoodiana, com o mistério Hammett. O produtor era Francis Ford Coppola, um americano que não foi tão seu amigo assim. Devido a diversos conflitos criativos, Wenders demorou a ver seu filme ser lançado, e quando o viu foi com uma versão bastante diferente da que idealizou. Wenders com um jeito cúmplice, disse para o Walter Sales, que estava sentado ao seu lado:”Eu te avisei”. Ele respondeu: “Você não foi enfático o suficiente”.

O cult Wim Wenders, contou que o filme Asas do Desejo, festejado por público e crítica, foi na verdade feito sem roteiro, com improvisações dos atores e inspiração local. O que acontece sem planejamento, ao acaso é precioso, que não controlar o processo criativo, funciona como uma cura para a alma e para a mente, concluiu. Quando foi questionado se isso era possível de ser feito hoje em dia, respondeu que mesmo para ele que já havia provado que conseguia filmar sem roteiro, isso não era possível, então ele confessou que escrevia roteiros falsos, só para conseguir financiamento.

Sai do Masp com a sensação positiva, Wenders em nenhum momento pretendeu ensinar, mas com sensibilidade, soube incentivar todos a buscar suas éticas e estéticas a favor da arte.

Terça-feira, 5 de Agosto de 2008

Lisboa: o que o turista deve ver

Você já pensou em ter Fernando Pessoa como seu cicerone na cidade de Lisboa?!

É o que acontece quando você lê o livro Lisboa: o que o turista deve ver. Um guia turístico escrito originalmente em inglês por Pessoa.

A charmosa cidade branca que Fernando Pessoa descreve é exageradamente perfeita, faço o mesmo quando falo de Lisboa para os amigos. Compartilho dessa vontade de exaltar Lisboa para o estrangeiro.

"Sobre sete colinas, que são outros tantos pontos de observação de onde se podem desfrutar magníficos panoramas, estende-se a vasta,irregular e multicolorida aglomeração de casas que constitui Lisboa. Para o viajante que chega por mar, Lisboa, vista assim de longe, ergue-se como a formosa visão de um sonho elevando-se até ao azul intenso do céu, que o sol aviva.(...) Ai está Lisboa."


O poeta começa pela Praça do Comércio, com o enorme arco triunfal que dá acesso à elegante Rua Augusta. Moro em frente ao Tejo, perto dessa praça e de muitos lugares descritos no livro: Rua do Ouro, o elevador da Santa Justa, o Rossio, isso causa uma sensação atemporal, tudo está muito semelhante ao descrito por Pessoa. Fica a impressão que irei encontra- lo no Chiado para tomarmos um café na Brasileira, lugar onde ele prestava homenagem à estátua do poeta António do Espírito Santo, e hoje encontramos o próprio Fernando Pessoa, transformado em estátua sentado à mesa.

Pessoa indica ainda, o Teatro Nacional Almeida Garret, hoje chamado de Teatro Nacional Maria II, de onde trago tantas recordações. Ele conduz ainda o visitante pela Avenida da Liberdade, e vai até os jardins do Campo Grande...


“Acordar da cidade de Lisboa, mais tarde do que as outras,
Acordar da Rua do Ouro,
Acordar do Rossio, às portas dos cafés,
Acordar
E no meio de tudo a gare, que nunca dorme,
Como um coração que tem que pulsar através da vigília e do sono.”

Com ênfase no nacionalismo ele nos dá a descrição das figuras exaltadas em monumentos, e cita fatos importantes da história portuguesa, e oferece ainda a ficha dos arquitetos e artistas que assinam a construção dos prédios da cidade.

“Lisboa com suas casas
De várias cores,
Lisboa com suas casas
De várias cores,
Lisboa com suas casas
De várias cores ...
À força de diferente, isto é monótono.
Como à força de sentir, fico só a pensar.”



Pessoa demonstra no seu guia, preocupação com a diminuição da importância da capital portuguesa e sua descaracterização diante das demais metrópoles do Velho Continente, o que realmente não tardou a ocorrer. Com toda a visão critica, ainda hoje, reconheço a beleza dos pequenos cantos da cidade, a luz tão aclamada pelos cineastas, os pequenos oásis de verde, e os monumentos que ele tão bem enaltece...

“Pessoa amou Lisboa. Pessoa rima com Lisboa”.

Lis boa! Lis ótima!

Segunda-feira, 21 de Julho de 2008

Peer Gynt by Berliner Ensemble

No enorme palco vazio, com as cruas luzes bem acesas, lá no fundo surge Peer Gynt, com a roupa suja e um andar duro característico de um homem do povo, caminha até a boca de cena... Ele falava com a voz forte em alemão, com uma figura tão envolvente que a princípio julguei que estava entendendo tudo, e embora contasse com legenda, eu não olhava para ela mesmo não dominando a língua, por alguns momentos não conseguia tirar os olhos do ator Uwe Bohm.
Logo depois entra o personagem que é a mãe de Peer, Aase, viúva pobre que tudo faz para o sustentar, compondo juntamente com ele com tanta maestria, que eu fui entrando na poética surreal, e vivendo as aventuras daquele conto de fadas como se fizesse parte dele.

Peer Gynt, é um um anti-herói totalmente fora dos padrões, uma mistura de sensualidade e auto-ilusão, que trata todas as mulheres, mesmo sua mãe Aase, como potenciais objetos sexuais.

Durante o espetáculo, havia uma galeria infinita de personagens e seres estranhos: para além da mãe de Peer, e da eterna apaixonada Solveig, havia macacos, doentes psiquiátricos, ladrões, a Esfinge do deserto, homens e mulheres troll, gnomos, beduínos bruxas, e escravas.
Os atores compunham os diversos cenários com muita criatividade, entrando com apetrechos que ganhavam diferentes signos na mesma cena. Víamos também o cenário sair com eles, e havia cenas que saltavam do palco para invadir a platéia, anulando a diferença entre os dois espaços.

É um prazer falar da peça Peer Gynt, que assisti no Festival de Almada (Portugal), com o Berliner Ensemble, companhia fundada por Bertold Brecht, sob direção de Peter Zadek.
Henrik Ibsen inicialmente escreveu um poema dramático, chamado: “monstro”, baseado em alguns contos de fadas noruegueses, que não era para ser representado, mas como foi considerado uma obra-prima da literatura escandinava, o próprio Ibsen resolveu adaptar o seu poema para o palco,com o nome de Peer Gynt.

Transcrevo um trecho revelador da carta de Henrik Ibsen para seu editor, enviada em 1868

“Tenho ainda a mencionar que hoje lhe envio o manuscrito dos primeiros três atos do meu novo trabalho, intitulado Peer Gynt, um poema dramático. Agora estou curioso por ouvir se lhe agrada. Eu próprio espero o melhor. Não sei se lhe interessa, mas Peer Gynt existiu realmente. Vivia em Gudbrandstal, provavelmente no início deste século ou no fim do anterior. O seu nome não foi ainda esquecido pelo povo de lá em cima, mas sobre os seus feitos não se sabe muito mais do que aquilo que se pode encontrar nos contos de fadas noruegueses, de Asbjornsen”

O diretor Peter Zadek, resolveu enfrentar o “monstro” Peer Gynt, e a sua estreia foi em Abril de 2004 no Berliner Ensemble. Só consegui ver agora e venho compartilhar porque o espetáculo é excepcional.
Apesar de Zadek ter iniciado sua carreira em Inglaterra, e seu repertório e estética ficarem longe da tradição alemã, ele é cultuado e venerado na Alemanha. No ano passado ele recebeu o Premio Europeu de Teatro.

Peer Gynt chama atenção durante a mágica noite e nos lembra que o individualismo das sociedades burguesas e o aprisionamento do Peer dentro do seu próprio mundo é uma condição do homem moderno.

“Fossemos infinitos

Tudo mudaria 

Como somos finitos

Muito permanece.”

Terça-feira, 1 de Julho de 2008

"Aleksandra" de Aleksandr Sokurov

Sokurov usa o tempo, o momento presente aparentemente interminável, para mostrar o conflito na Chechénia e refletir sobre a totalidade da experiência da guerra. Não há nada no filme que seja superficial, esse tempo do cotidiano, só revela a perda básica da humanidade. Os aspectos emocionais não são ofuscados pelo intelectual, e esse equilíbrio faz toda a diferença.

A belíssima fotografia capricha para mostrar o ambiente letárgico, o calor, os corpos que dormem pouco,comem mal e são maltratados pelo cotidiano da Guerra.

O primeiro movimento, para definir o ritmo de Alexandra(Galina Vishnevskaya), mostra como ela chega ao trem blindado e interroga sobre a unidade militar de seu neto Denis (Vasily Shevtsov). É paradoxal as imagens dela entrando dentro do universo da Guerra, potencialmente perigoso… Ela a idosa e experiente entre os jovens fortes e imaturos.


A simples presença física da avó, no meio a guerra confere tensão, mostra a guerra como trabalho inútil, desgastante, onde os soldados sequer defendem a pátria.
Entendemos a guerra pelas pessoas que a fazem, pelo lado das relações humanas, pois ela nunca ocorre em frente às câmeras.
A maior parte da narrativa se passa com as caminhadas de Alexandra pelos campos, em meio aos soldados, um acentuado simbolismo da Mãe Rússia e seus filhos.

Um capitão altamente respeitado, propõe o segundo movimento, aprovando sua caminhada para o mercado da aldeia vizinha, onde ela entra em contato com os habitantes locais chechenos, e é muito bem tratada. Fica estampada a solidariedade e o carinho das mulheres que acolhem a Russa que vai comprar cigarros e bolachas para os soldados.



No terceiro movimento, Alexandra está cheia de perguntas, e significativamente, ela insiste em que essas questões são importantes para o País. Ela retorna à base indagando ao seu neto Denis sobre o seu lugar na guerra, o lugar da guerra em todo o mundo, o seu futuro, seu bem-estar…
Calmamente, com as simples questões feitas pela avó, chegamos a perceber a razão para tantas perguntas, como: "Onde você lavar?" ou "O que você lê?" porque desemboca no que é preeminente, como a forma de carregar uma arma: "Oh - é assim tão fácil?" no mesmo tom ela continua: "Você já matou? Quantos? E os temas são abordados no local, onde não há espaço para os sentimentos.


Com um cinema poético, Sukorov nos leva a ver no papel de uma velha avó que vai visitar seu neto servindo o exercito na Chechénia, toda a complexidade da Guerra e da política atual da Rússia, em um mundo de especificidade e universalidade.

Quinta-feira, 12 de Junho de 2008

Livro em Cena - Sobre Humanos

Fiquei ausente por um bom motivo: O Livro em Cena, “Sobre-Humanos” de Paulo Bloise, com posfácio de Heloisa Prieto. Todos estão convidados, para a próxima sexta, no Memorial às 16:00 horas, visite o site:http://www.modernaliteratura.com.br/literatura/animacao/paulob/

Gostei de trabalhar o livro “Sobre-humanos”, por sua atitude política, pela sua luta pelos excluídos, os marginalizados, pelo seu empenho na reforma psiquiátrica.

Ele mostra o que se passa atrás dos muros dos hospitais e das conveniências dos sistemas. É um livro de denuncia, que vem multiplicar as inúmeras vozes de seus personagens mostrando a divida que a sociedade tem para com essas pessoas que são presas e obtém um tratamento desumano.Ele mostra o que é a assistência psiquiátrica como exemplo de muitos hospitais.

O olhar do Bloise sobre a diferença e como a sociedade lida com o outro e as suas relações entre linguagem, loucura e cultura, proporciona visibilidade às questões dos portadores de sensibilidade alterada.

Não optamos pela, adaptação das narrativas, mas pela leitura integral do texto inteiramente transposto para o palco. Gestos, emoções, descrevem o que as palavras textuais narram, compondo um espetáculo de alta intensidade e beleza estética por meio do qual se potencializa as várias camadas de significado que a boa literatura é capaz de gerar.


O elenco é maravilhoso e eu sou totalmente suspeita para falar de cada um, assim como da fotógrafa e do video maker, então peço que vocês confiram o percurso profissional de cada uma dessas pessoas e entenderão…
Estão todos convidados! Espero por vocês!

Domingo, 13 de Abril de 2008

Poesiefestival


O Poesiefestival Berlin, que é considerado o maior do gênero na Europa acontece na capital alemã, entre os dias 5 e 13 de julho, na Akademie der Künste (academia das artes).
O festival este ano homenageará a poesia em língua portuguesa. Com um público total estimado em 10 mil pessoas o evento, incluirá na programação: música, dança, performance, artes visuais e leitura de textos.
O festival terá ainda, a participação do poeta carioca Marco Lucchesi, e do cantor, compositor e poeta Arnaldo Antunes.
Vários Países foram homenageados no Poesiefestival, no decorrer dos anos: a Austrália (2003), a Irlanda e a língua celta (2004), os países de língua espanhola (2005), a Suíça (2006) e a poesia canadense, em francês, da província de Québec(2007), e agora podemos festejar a Língua Portuguesa, na moderníssima e vibrante cidade de Berlim.


Você poderá encontrar a programação completa, no site onde é divulgado o festival.
O site é um acontecimento a parte, onde todos podem participar sem sair da poltrona, entrem e usufruam desse acontecimento.
Literaturwerkstatt é a instituição responsável pela organização do Poesiefestival e também pelo site: http://www.lyrikline.org/ onde você encontra uma compilação de poemas escritos em quase 50 idiomas, com 460 poetas e 4600 poemas.
Vamos viajar e nos perder no site, onde no impulso de uma tecla é possível você escutar os poemas lidos por cada autor, falados pela voz humana, pelo som, pela melodia e pelo ritmo de cada poema que é transformado em música.
No site, eles defendem a idéia de que todo poema deve ser lido em plena voz alta, para ser escutado e assim revelado a sua qualidade musical inata.

Eles acreditam que não importa em que língua um poema é escrito e não importa em que parte do mundo ele é lido, porque ele será imediatamente reconhecido como um poema, um concerto de palavras.

«…Escrever é tocar no corpo do mundo, é um acontecimento cujas consequências se revelam na trama da obra e na história dos homens…»

“Pensar Letras
Sentir palavras
A alma cheia de dedos”

Terça-feira, 1 de Abril de 2008

Photo Espanha 2008 - Lugares reais, Espaços mentais

O Festival Internacional de Fotografia e de Artes Visuais, Photo Espanha 2008, que se realiza a partir do dia 4 de Junho até ao dia 27 de Julho em Madrid, (Canal de Isabel II e na sala Alcalá 31). Apresenta um programa centrado nos espaços, concretos ou inventados, como inspiração artística.
As propostas de Photo Espanha navegam em todas as direções. Desde Eugene Smith até Tomás Vallhonrat ou Thomas Demand.
Fiquem atentos também para o ciclo de cinema na Filmoteca Espanhola. No Festival Off, Campus PHE, teremos este ano: foto-jornalismo,fotografia conceitual e a fotografia de moda.

Gostei da proposta, de que o conceito de espaço pode remeter a essências míticas, mentais, ou inventadas.
Gostei de pensar nos espaços sugestivos, nos lugares concretos e nos universos em miniatura, como olhar desse Festival.

Gostaria de emprestar meus olhos afetivos, invocar o poder intuitivo e curtir com vocês todas as fotos.
Gostaria de cultivar a percepção da beleza da Natureza e sua influência no Poder da Criação.
Gostaria de compartilhar a liberdade de um olhar, criativo, lúcido, e viajar nas fotos que nos levam a expandir nossa consciência!

"O tempo, o tempo, o tempo e suas águas inflamáveis, esse rio largo que não cansa de correr, lento e sinuoso...".

Quarta-feira, 19 de Março de 2008

Hilda Hilst e o Processo de Teatro

Estamos vivendo um momento de intensa relação de Hilda Hilst com o universo teatral. A obra da escritora tem sido levada em cena com diferentes montagens, e eu acompanho de perto o processo teatral de minha amiga, Rosaly Papadopol.

Sei que muitas pessoas vêem a Hilda como pornográfica, mas ela na verdade, é um grande e misterioso baú, donde podem infinitas personas emergir para povoar o grande palco da Arte.

Teatro é um artesanato, um processo ritual, uma comunicação humanamente direta, pelo qual sou apaixonada.
Sempre há espaço para o ator de teatro por excelência e eu torço pelos amigos, como a Rosaly, que lutam não apenas por um espaço dentro do que já está estabelecido, mas tentam traçar novos caminhos, questionam as estruturas existentes, e vão em busca de apoio e orientação para trazer à tona os projetos imaginados.



Rosaly contou que em 1998, em plena madrugada, nossa amiga atriz Imara Reis, ligou empolgada dizendo que havia lido uma entrevista com a Hilda, e percebido quanto o temperamento artístico da Hilst era próximo ao universo da Rosaly. Fiquei imaginando a Imara empolgada, sem se preocupar com o horário, e a Rosaly acordando e se reencontrando com o mundo da Hilda.
Rosaly voltou a ler Hilda, de quem já era grande admiradora, e com um olhar abrangente, optou por trabalhar com a obra da escritora, através do teatro.
Com a ajuda de José Antonio de Souza e Gaspar Guimarães, traçou o perfil literário e pessoal de Hilst, nos seus diversos estilos, com poesia, ficção e teatro, realçando a real dimenssão da obra e alma da escritora.

Rosaly desejosa de se lançar com a obra de Hilda, começou a produção do trabalho em 2005, e tentando criar raízes e asas para voar, luta com afinco, para levar em cena a arte de Hilda Hilst.

Na senda da transformação que a arte pode evocar, encontramos eco na obra de Hilda Hilst, que possibilita redescobrir recantos adormecidos.
Vibro para que Rosaly traga à cena tudo o que ela absorveu da obra de Hilda Hilst. Sei que Tália e Melpômena, o símbolo do teatro, as duas máscaras a que ri e a que chora, virão para aplaudir e mostrar que todo o árduo percurso do processo teatral, faz parte das duas faces da mesma moeda.

Quarta-feira, 27 de Fevereiro de 2008

Tarsila do Amaral


Nessa minha volta a São Paulo, foi muito significativo ver as obras de Tarsila do Amaral, que com toda sua brasilidade, foi representante do movimento modernista, e trouxe renovação para a arte brasileira

A exposição Tarsila Viajante, que fica até 16 de março na Pinacoteca do Estado, aborda a influência das viagens, no trabalho da pintora. Você pode ver na trajetória de Tarsila, pelo tempo e espaço, 35 pinturas e 120 desenhos, incluindo Abaporu, A negra e Antropofagia!

Revivi com Tarsila a busca da identidade brasileira, nas suas “viagens”, apresentada nos seis núcleos da exposição: Anos de formação, Ensaios modernistas, O descobrimento do Brasil, Viagem ao Oriente Médio, Brasil mágico e Viagem a União Soviética.
Um de seus quadros, Abaporu, que serviu como inspiração e síntese do Manifesto Antropófago, criado pelo Oswald de Andrade, comentado aqui no Serenade, quando indignada o vi em Buenos Aires, no MALBA. Agora foi com enorme prazer, que pude ver juntas as três importantes pinturas da artista: Abapuru, A negra e Antropofagia!

“Uma figura solitária monstruosa, pés imensos, sentada numa planície verde, o braço dobrado repousando num joelho, a mão sustentando o peso-pena da cabecinha minúscula. Em frente um cacto explodinda numa flor absurda.” Comentário de Tarsila sobre o quadro Abapuru.


Depois da separação do primeiro marido, Tarsila que passou a morar em São Paulo, dedicava-se ao piano, à composição de versos e à pintura. Depois de ter decidido pelas artes visuais deu um depoimento dizendo: “Por timidez passei a fazer pintura”

Tarsila foi apresentada por Anita Malfatti, ao grupo dos Modernista, com a afinidade e amizade entre eles, formou-se o chamado Grupo dos Cinco com Anita Malfatti, Menotti del Picchia, Mário de Andrade e Oswald de Andrade, com quem se casou.
As reuniões desse grupo eram animadas, constantes e tinha a participação de outros artistas da Semana da Arte Moderna.



Tarsila, após seu retorno da Europa, em 1923, trouxe para sua pintura soluções realmente originais, combinando as técnicas do pós-cubismo aprendidas com Andrë Lhote, Albert Gleizes e Fernand Léger, com temas e um colorido profundamente identificados com a cultura brasileira. Podemos reconhecer em suas obras, que Fernand Léger, a marcou profundamente.

Sobre sua viagem ao Oriente Médio Tarsila declarou:
“Depois de três meses que passei no Oriente Próximo, turquia, Grécia, Arménia, Palestina; Egito, Chipre, Rhodes, depois do contato mais intimo com a arte Oriental, lembro-me de voltar a Paris , achei as suas vitrinas , na sua maioria, feias pela suas decorações flasas, porque nem tudo que se faz em Paris é bom, como muita gente ainda pensa. A falsidade e o desejo evidente de originalidade me chocaram profundamente”

Sinto-me próxima a Tarsila viajante, que levou de cada lugar que visitou elementos para enriquecer sua vida, não separou o intimo do artístico e descobrindo a si mesma revelou um Brasil moderno.

Sábado, 16 de Fevereiro de 2008

Jardim da Luz - São Paulo

Depois da exposição “Tarsila Viajante”, fui caminhar no Jardim da Luz, e refletir sobre as maravilhas que acabara de ver. Como os frequentadores do Serenade sabem, nesse jardim encontra-se a sede da Pinacoteca de São Paulo.

No Jardim da Luz, onde originalmente foi um jardim botânico, transformado em espaço público no fim do século XIX, você caminha cercado de arte por todos os lados…

Em São Paulo, com sua cultura forte e própria, sentimos a decadência da civilização, eu como paulista desfruto dessa cidade da melhor maneira que posso, e tento reconstituir as sensações que ela suscita. Registro meus passos, na intenção dela conservar sua memória, não perder a alma e sonhar com o futuro.

“Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.”


"Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores."

"Olha: o amor pulou o muro, o amor subiu na árvore em tempo de se estrepar. Pronto, o amor se estrepou. Daqui estou vendo o sangue que escorre do corpo andrógino. Essa ferida, meu bem, às vezes não sara nunca. Às vezes sara amanhã."

"Eu vejo as árvores verdes, rosas vermelhas também
Eu as vejo florescer para nós dois
E eu penso comigo... que mundo maravilhoso

Eu vejo os céus azuis e as nuvens brancas
O brilho do dia abençoado, a sagrada noite escura
E eu penso comigo... que mundo maravilhoso

As cores do arco-íris, tão bonitas nos céus
E estão também nos rostos das pessoas que passam
Vejo amigos apertando as mãos, dizendo: "como você vai?"
Eles realmente dizem: "eu te amo!"
Eu ouço bebês chorando, eu os vejo crescer
Eles aprenderão muito mais que eu jamais saberei
E eu penso comigo... que mundo maravilhoso
Sim, eu penso comigo... que mundo maravilhoso"

Domingo, 20 de Janeiro de 2008

Turismo Infinito - Fernando Pessoa

No Turismo Infinito em companhia dos hetrónimos, das cartas de amor de Ofélia Queirós, do universo inteiro, viajamos em uma aventura, onde transmutamos nossas emoções, expandimos nosso mundo e ampliamos nosso espaço de reflexão, junto à obra do Fernando Pessoa como todo.

"O coração, se pudesse pensar, pararia."


Agora em Lisboa, no Teatro Nacional D. Maria II, Turismo Infinito, peça com dramaturgia de António M. Feijó - obra de Pessoa, dos seus heterónimos e das cartas de amor de Ofélia Queirós.
Ricardo Pais, diretor da peça, propõe uma viagem ao universo da vida e obra de Pessoa, com um espetáculo brilhante em suas diversas sínteses, simples, austero, estilizado, e contido.

O ponto de partida de António M. Feijó, o autor da peça, para a criação do espetáculo, foi a existência de “vários textos, inéditos durante muito tempo, nos quais Pessoa põe os heterônimos a falar entre si”.

"Fui educado pela Imaginação, / Viajei pela mão dela sempre, / Amei, odiei, falei, pensei sempre por isso. / E todos os dias têm essa janela por diante, / E todas as horas parecem minhas dessa maneira".


A impactante cenografia concebida por Manuel Aires Mateus, porto infinito onde chegam ou de onde partem o guarda-livros Bernardo Soares, o futurista Álvaro de Campos, o interseccionista Fernando Pessoa e o mestre Alberto Caeiro, exerce uma influência fundamental no efeito que os textos escolhidos adquirem na direção.
Em sintonia perfeita, com a direção nesta viagem pessoana, Manuel Aires redesenhou o palco, criando uma visão espacial com sua perspectiva e profundidade, fundamental na estética de Ricardo Pais.
Nesse ecrã negro, vão passando figuras, imagens, personagens criadas por um grupo de atores de alto nível, numa articulação medida e quase neutra.
Com equilíbrio tímbrico alternam-se as vozes e as palavras dos atores, ingrediente fundamental para unidade do espectáculo.
Sublinho João Reis no todo de seu trabalho e o virtuosismo de Emília Sylvestre, no Monólogo da Corcundinha.

“Sou a cena viva onde passam vários actores representando várias peças.”


O trabalho de luz nesse infinito, nesse negro de cujo contorno se perde a noção, mostra-nos corpos fragmentados desvendando o interior dos personagens.
Como o espaço cénico é praticamente despido de objectos, opta-se pelas sombras chinesas, jogando com os cículos da cenografia.

A sonoplastia de Francisco Leal cria ambientes sonoros, em apurada elaboração e atmosfera que complementa o trabalho.

Ricardo Pais, em uma obra literária tão complexa e profunda, como a de Fernando Pessoa, consegue a partir dos fragmentos chegar à totalidade, ao Infinito, proporcionando um turismo dentro de nós mesmos, com as mais preciosas e eternas palavras da literatura.

Quarta-feira, 9 de Janeiro de 2008

Um Teatro sem Teatro

"Um Teatro sem Teatro",apresentada no Museu d'Arte Contemporani de Barcelona, que foi considerada a melhor exposição da Espanha, no ano de 2007, estará em Lisboa no, Museu Colecção Berardo, até 17 de fevereiro.
A exposição “Um teatro sem teatro” propõe uma reflexão sobre a influência do teatro no terreno das artes plásticas, suas relações e intercâmbios, nos convidando a ver e a pensar.

Na entrada da exposição, vemos vários documentos relacionados com a influência do movimento dadaísta no teatro, a partir das primeiras décadas do século XX - dramaturgias escritas por artistas como Pablo Picasso, fotografias, programas de teatro e panfletos.

Na etapa seguinte descobrimos documentos históricos do teatro e das artes visuais nos movimentos: dadaísmo, futurismo e surrealismo que revelam suas lutas contra as convenções estabelecidas na época.
Prosseguindo na exposição vemos outros trabalhos de: Konstantin Stanislavski,Vsevolod Meyerhold, Antonin Artaud, Samuel Beckett, Jerzy Grotowski.
Tem ainda uma sala com uma máquina cenográfica, do artista polaco Tadeusz Kantor, que foi um dos primeiros artistas a interessar-se por elementos de outras culturas, criando espectáculos com elementos de rituais, danças tradicionais indianas, artes marciais, sempre com intensa relação com o público.


Oskar Schlemmer, está bem representado em um grande espaço dedicado ao Ballet Triádico (dança teatral), com fotografias, máscaras e cartazes, e uma reprodução de uma grande instalação datada de 1927, duas figuras, uma feminina e outra masculine, suspensas do teto e a sala forrada de grandes argolas de madeira.
Merce Cunningham, John Cage, Robert Rauschenberg, Andy Warhol, Frank Stella e Bruce Nauman, são alguns dos artistas dos anos 70.
Vemos vários exemplos de "happenings", surgindo desde o início dos anos 60, chegando à arte contemporânea, bem como instalações e performances, nas relações entre artes visuais e o teatro.

Apreciamos no final da exposição, instalações e vídeos de artistas como: Juan Munoz, Bruce Nauman, James Coleman e Dan Graham.

Concluimos que existe um lugar entre a experiência e a ação onde se desenvolve a arte em cena através de imagens.
A exposição serve para alimentar a nossa visão interior com ajuda dos elementos e mundos desses artistas, em suas lutas para se libertarem das deformações que os hábitos adquiridos nos impõem.
Saímos de lá, vendo tudo como se fosse a primeira vez, como crianças, sendo originais e autênticos, com nossas particularidades somadas as todas essas influências, onde o nosso artista interior revela-se em toda a liberdade.

Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2007

Centre Pompidou Novos Media 1965-2003- no Museu do Chiado

É sempre bom ir ao Museu do Chiado em Lisboa, melhor agora com a exposição do Centre Pompidou Novos Media , onde os artistas com o uso do vídeo, exploram possibilidades estéticas como instrumento crítico das imagens.
video Encontrei vários bonecos de Tony Oursler na exposição, que suspensos em tetos, vãos de escadas, e espaços mortos do circuito, compõem com as luzes monitores e projeções a idéia do inusitado.

Estes trabalhos, vindos do Centre Pompidou de Paris, que tem como proposta serem interativos, são um estimulo a criatividade. Uma viagem no tempo, ao começo da descoberta do vídeo como material mais barato e acessível que o filme e suas possibilidades no campo da experimentação.

A primeira instalação que entrei foi: Present Continuous Past, de Dan Graham. Além de lidar com minha imagem gravada, me via também refletida nos espelhos e no reflexo do monitor a emitir o que já havia sido registrado. Uma forte sensação de alteração dos conceitos espaciais e temporais através das imagens.

Na secção da expo- sição: "Para uma Televisão imagi- nária”, quero citar: Moon is the Oldest TV- de 1965, por ser o trabalho mais antigo e pelo romantismo da idéia, Nam aplicou as interferências magnéticas nos tubos catódicos monitores,interrompendo os sinais para criar na tela da TV, silhouetas que representam as fases da lua.

Gostei das críticas aos conteúdos televisivos de Chris Marker ou Matthieu Laurette; da "televisão ao contrário" de Bill Viola e Valie Export; das relações com as artes visuais exploradas por Vito Acconci.
Gostei ainda, das pesquisas espaciais de Martial Raysse, Bruce Nauman e Global Groove, de Nam June Paik, e de Chris Marker, Immemory, lidando com a memória das imagens.

Quero salientar o trabalho de Pierre Huyghe, que em 1999 produziu The Third Memory, obra em três partes que recupera os recortes de imprensa sobre um assalto a um banco (em 1972), a história inspirou o filme: Um Dia de Cão, com Al Pacino e a memória do assaltante duas décadas depois. E não posso esquecer dos trabalhos que associamos de imediato ao cinema (Jean Luc-Godard e Chris Marker).



Meu lado musical fez eu ter um carinho especial com: Hors Champs, de Stan Douglas , quarteto em concerto de free-jazz com a composição de Albert Ayler- Spirits Rejoice, com a direção integral da rodagem do concerto por Stan Douglas.


Cada vez que revejo, o Arena Quad I and II, de Samuel Beckett, gosto mais. Quatro figuras sem identidade,diferenciados apenas pela cor das suas roupas, encenam uma geometria de cruzamentos de posições sobre um quadrado. Seguem uma regra de circulação, onde a obra instaura um ritmo alucinatório de espectativa que se esgota em cada passo, sendo regido pelas batidas sonoras dos pés. A estrutura, possui dois andamentos: um rápido e a cores, outro lento e a preto e branco, ambos impondo um sentido do absurdo, tornando a ação uma redundância em si mesma. A cadência de todos os movimentos e a imposição a um esquema tão marcado pela quadratura, esgotam a ação e o papel das figuras, provocando uma abstração espacial cognitiva e sensorial.


Em Feature Film,de Douglas Fordon,o artista toma como ponto de partida a banda sonora do filme vertigo, de Alfredo Hitchcock, composta por Bernard Herrmann. “Não como uma apropriação, como é frequentemente em muito dos seus trabalhos, mas na realização de um filme sobre a condução dessa mesma banda sonora pelo maestro James Conlon com a orquestra da Ópera Nacional de Paris.
A obra consiste num longo bailado do rosto e das mãos do maestro, na condução da banda sonora original, ao longo de 128 minutos, enquanto que num canto da mesma sala é exibido num monitor TV a versão integral do filme Vertigo.”
Fiquei absorta com os close-ups conjugados com a densidade dramática da música e da imagem.

Senti vontade de ter mais experiên- cias em vídeo, de ser mais espontânea no trabalho, de ser mais inovadora em tudo, de ser mais participativa no mundo das artes e de convidar todos os amigos a cultivar a liberdade na criação.

Domingo, 2 de Dezembro de 2007

Museu Brecht-Weigel-Gedenkstatte


Há lugares com histórias tão pessoais, que nos ajudam a escrever as nossas...
Na rua chausseestrabe 125, viveu os três últimos anos de sua vida, Bertolt Brecht, um dos maiores dramaturgos, século 20, com a sua mulher, a atriz Helene Weigel.
Berlim que é uma cidade por onde já passaram inúmeros artistas e intelectuais, não teve nenhum outro escritor moderno que tenha deixado marcas tão nítidas na cidade como o dramaturgo Bertolt Brecht.
No Museu Brecht-Weigel-Gedenkstatte, vemos Brecht na intimidade. Vemos na sala, a mesa com sua máquina, na qual ele escreveu muitas das suas peças e grande parte de sua poesia. Vemos a vasta biblioteca de livros de Brecht em vários idiomas.Vemos pela janela o cemitério onde ele e, mais tarde, sua esposa foram enterrados.


Brecht é um dos dramaturgos mais encenados do mundo e a Ópera dos Três Vinténs, uma das peças mais famosas do planeta. Ele é o único dramaturgo alemão encenado em todo o mundo, e nisso está bem à frente de Goethe. Neste aspecto, Brecht só pode ser comparável a Shakespeare, Molière, Eurípedes e Goldoni. Ele iniciou seu trabalho como diretor de teatro, na parte de Berlim sob ocupação soviética, formando o trabalho e filosofia que o Berliner Ensemble mantém até hoje.

No meio teatral Bertolt Brecht é sempre citado como um importante teórico teatral e seus conceitos são amplamente discutidos, mas temos todos dificuldade em entender amplamento o que venha a ser, o distanciamento, o verfremdungseffekt, o efeito do afastamento.
Sua concepção cénica é baseada na necessidade de estabelecer uma distância entre o espectador e os personagens, para que o ponto de vista crítico do autor provoque no espectador uma tomada de consciência.



Brecht Brecht, teve suas obras lançadas ao fogo,
durante a queima de livros organizada pelos nazistas na atual Bebelplatz, em 1933, um dia após o incêndio do Reichstag. Foi um ano com muitos acontecimentos marcantes na vida de Brecht, no início do ano, sua peça A Medida, foi interrompida por policiais. Nesse mesmo ano, percebendo que começaria a caça aos opositores do regime que se instalara no poder com a ascensão de Hitler a chanceler do Reich, Brecht partiu para o exílio dinamarquês com seus filhos e sua terceira mulher, a atriz vienense Helene Weigel, e só retornou à Alemanha em 1948.
No exílio escreveu várias peças inspiradas em sua luta contra o nazismo, e no seu regresso fundou o grupo teatral ´Berlin Ensemble´, onde encenou muitas de suas peças politicamente provocativas.

O teatro da diversão, o teatro trash, o teatro de agressão, tudo isso já passou e Brecht continua sendo vanguarda. Suas peças e sua maneira de ver o teatro, ampara as pessoas que estão em busca de sentido num mundo frio e pragmático.

“O amor é a arte de criar algo com a ajuda da capacidade do outro.”

Segunda-feira, 26 de Novembro de 2007

LOVE IN LISBON

No sábado enquanto passávamos de carro na Av. a beira Tejo, o Gustavo gritou:“LOVE”!
Como? Onde? e ele disse:As esculturas do Robert Indiana estão lá…
Como eu não havia visto nada, a não ser os inúmeros contentores, achei um pouco estranho...

No domingo de manhã, fomos no local em que ele achava que havia visto as esculturas, quando lá chegamos não havia nada, andamos em meio aos contentores e nada, voltamos decepcionados…
Hoje pela manhã ele me ligou e disse: O LOVE está na Praça da Figueira!
Fiquei muito feliz de poder usufruir dessas imagens e vim compartilhar.


Robert Indiana é um artista americano do movimento Pop Art, que usou de irreverência e ironia em seus trabalhos, através de imagens repetidas.
Inspirou-se na arte comercial, com abordagens diversificadas e passou a chamar seu trabalho de "poemas escultóricos". No trabalho de Indiana, vemos imagens, em especial números e palavras curtas como: "EAT", "HUG", e "LOVE".

O LOVE de Robert Indiana é uma imagem frequen- temente citada. Ele criou o desenho para um cartão de Natal em 1964, e posteriormente exibiu em Nova York, 1966, uma série de pinturas em primeira versão tridimensional da imagem.
Na escultura LOVE, sinto que o contraste entre o ferro e as letras emotivas com a palavra "amor" produz uma tensão que gera muito interesse no trabalho de Indiana.

“Dá-me uma proximidade que não tenho. Desconstrói a fome, a sede. Reinventa-me. Refaz-me.

”

Sábado, 24 de Novembro de 2007


Na minha visita a Berlim o que mais me impressionou foi ver em vários e diferentes lugares obras, parece que toda a cidade vive a reconstrução e a busca a uma identidade como cidade unificada.

Berlim comemorou agora em novembro os 18 anos da queda do muro, a cidade que nunca mais foi a mesma, abriu-se ao mundo. As duas Alemanhas, separadas durante anos, voltaram a ser apenas uma e nas suas inúmeras mudanças Berlim revela-se nova cidade.

Revendo um pouco o passado, voltamos há trinta anos atrás, onde na Alemanha de leste, ser underground era ser contra o sistema, ser ostpunk (punk do leste) e, ao mesmo tempo, pintor, performer e ativista político.
Já do lado da Alemanha ocidental, embora tivessem liberdade para falar e participar muitos artistas e músicos rejeitavam também a cultura limpinha e democrática, que lhes entrava pela casa adentro.

O que representava ser underground , de um e de outro lado do muro, nos anos oitenta, em Berlim, parece não fazer mais sentido e agora você percebe esse modo de vida sendo questionado pelos artistas.
Foi na década de noventa o momento de reconstrução e euforia na busca de uma identidade própria para a cidade unificada. A cultura underground berlinense teve então seu auge, onde o charme da decadência imperava num clima imaginário de pós-guerras.

Hoje a mudança vertiginosa de Berlim e o espaço para a vida alternativa, que era tão atraente para tantos, diminuiu e já começa a se incorporar no todo da cidade.
As multinacionais da área de comunicação, tem um plano de reabilitação das margens do rio Spree, o projeto Media Spree, A Universal, a MTV e a operadora de celulares O2, são apenas algumas das que disputam os terrenos e armazéns ocupados por galerias de arte, salas de concertos, associações, cooperativas, comunas, ateliers, bares, e o que não sabemos é para onde irá a cultura underground de Berlim.

Domingo, 18 de Novembro de 2007

David Lynch

Ontem fui inundada pelo Universo Lynch:na minha frente ele entrou no palco do Centro de Congressos do Estoril em grande estilo, rosto límpido, cabelo grisalho,penteado impecável, gravata amarela, sob uma gabardina preta à Dale Cooper, sorrindo começou por dizer: ”This David Lynch guy is nuts... mas vamos experimentar e ver o que sucede”.
Havia uma grande euforia na masterclass com David Lynch: 'A Arte, a Vida e a Meditação Transcendental'.Todos queriam ser absorvidos por esse universo para vai além das sensações e para estados de espírito que passam por transes de meditação.

David Lynch foi homenageado pelo European Film Festival, que encerrou no Estoril, e teve uma completíssima retrospectiva da sua obra,
recebendo o Prémio de Carreira, das mãos de Julee Cruise.
Na sessão de perguntas e respostas, se falou de Inland Empire e Mulholland Drive, de seus dois últimos filmes, da série Twin Peaks e sempre de meditação trancendental.
Há mais de 30 anos Lynch, mantém a disciplina da meditação transcendental, e defendeu-a como: “um oceano de consciência sem limites, eterno, profundo, uma via privilegiada para atingir a paz mundial, e a felicidade universal.”
Lynch lançou a David Lynch Foundation For Consciousness-Based Education and Peace, que visa financiar pesquisas sobre os efeitos positivos da meditação.

O cineasta, que escreveu um livro sobre o impacto da meditação sobre a criatividade, “Catching the Big Fish”, disse:“A meditação transcendental é uma claridade doce e elétrica, que traz ondas de felicidade e proporciona a expansão da mente, plenitude e é uma porta aberta para a iluminação.”
A meditação transcendental, defendeu Lynch é “dinheiro no banco para os artistas, é sua ferramenta número um porque traz mais criatividade, felicidade e disponibilidade,afastando a negatividade, que é como veneno para os artistas.”
Dentro da atmosfera lynchiana, incentivou os futuros diretores de cinema a serem sempre fiéis a si mesmos, nunca aceitarem um não como resposta, nunca abdicarem do final cut e nunca rejeitarem uma boa idéia.
As idéias para os seus filmes revelou Lynch,
surgem continuamente, mas em fragmentos que vão sendo trabalhados. Mostrou seu entusiasmo com as câmaras digitais e disse que depois de ter descoberto as câmaras digitais em Inland Empire, ficará doente se tiver que voltar a rodar outro filme em celulóide.
A maioria dos profissionais de cinema que ali estavam, queriam focalizar nas perguntas sobre cinema e ele fez questão de lembrar o tema da masterclass, dizendo que “o cinema não é só uma coisa intelectual, mas é também uma coisa da intuição e a meditação transcendental é a porta que se abre e nos leva ao mais profundo estado de nossa consciência”.

Sábado, 10 de Novembro de 2007

Pedro Almodóvar no European Film Festival

Ontem, fui assistir a palestra de Pedro Almodovar, no auditório do Casino do Estoril, no European Film Festival.
Foi um encontro com um autêntico showman, com humor, presença marcante e espontaneidade, falando em espanhol, sem tradução, Almodovar conduziu a plateia portuguesa, jovem na sua maioria, deixando todos muito a vontade para fazer perguntas com intimidade e descontração.
Pedro Almodovar, que veio ao Estoril acompanhar a retrospectiva do seu trabalho e receber um premio especial do European Film Festival, aproveitou a sua estadia em Portugal para também ter esse encontro com seu público.
Como ele estava muito solto, as perguntas vieram de todo o lado, ele disse que não falaria de seu novo filme que será rodado em Janeiro, devido aos problemas de direitos autorais, disse ter enfrentado problemas com o nome do filme “Volver”, pois alguém depois dele ter contado sobre o filme, registrou o nome e lhe causou problemas.
Pediram para que ele falasse sobre seus filmes e Almodovar disse:«É muito difícil falar de cada um dos meus filmes. Cada um é uma etapa da minha vida. Não tenho um favorito mas assumo toda a minha trajetória».




(Na foto ao fundo, Paulo Branco, o director artístico e produtor do festival)
Uma senhora, que se apresentou como Venezuelana, fez a pergunta que creio ser a mais comum: Porque você tem tanto fascínio pelo Universo Feminino?
Ele falou que isso não era tão consciente, era espontâneo, ele começava a escrever e então surgiam naturalmente muitas mulheres. Explicou que na sua infância, morou em uma aldeia, no interior da Espanha, onde “os homens trabalhavam o dia todo e só voltavam para a casa à noite”, e que “as mulheres achavam que pelo fato dele nessa altura ter quatro, ou cinco anos era cego surdo” e então, ficavam muito à vontade com ele ao lado, “vendo-as coser, ouvindo-as cantar e contar as tragédias que ocorriam na aldeia”, e desde então, que a mulher era para ele : “a máxima representação da vida”.


Teve um momento muito especial em que ele disse brincando para um entrevistador que não fizesse nenhuma pergunta de política internacional e então o rapaz respondeu que era justamente o que ele queria perguntar, já que o ministro francês Dominique de Villepin (de direita) estava na sala, e fotografei…
Muitas risadas, passaram o microfone para o ministro, e o Almodovar quis saber se era verdade que Villepin tinha gostado do filme Volver, pois ele havia ouvido falar. O político francês confirmou e disse que apreciava a obra do Almodovar.
Almodovar: Há políticos, como o presidente da Câmara de Madrid, que por vezes, me dizem que gostam muito de meus filmes e logo a seguir me pedem um favor” Risadas e o clima foi ficando mais descontraido ainda e alguém perguntou onde é que ele ia buscar inspiração, e como surgiam as idéias para os filmes.
Ele disse que era do cotidiano, podia surgir a qualquer momento e contou que um dia passando na rua viu um anúncio que dizia: “Dona Sangre”(doa sangue). Ele imediatamente pensou, existe um grupo de vampiros por detrás disso e começou a desenvolver a ideia, o público gargalhava com a entrega dele, enquanto descrevia e interpretava o presumível filme, pudemos ver sua natureza criativa.
Houve declarações: “Gracias por existir” e “Para mim, há dois espanhóis que compreendem muito bem as mulheres: Garcia Lorca e você”
E a última pergunta foi qual o tipo de música que ouvia enquanto criava, ele falou de música eletrónica em que ele não precisava prestar atenção e ao mesmo tempo o embalava no processo e que gostava muito de ouvir as músicas do Caetano Veloso e sua irmã, e claro, fiquei contente de ver a referência ao Brasil.
Viva Arte!
Arte Viva!

Domingo, 4 de Novembro de 2007

Joseph Beuys

Berlim é uma cidade de arte e cultura, para os seguidores de todas as artes. A cidade mantém um fluxo permanente, nunca cessa de causar surpresas, dando-nos inspiração para o nosso desenvolvimento e criatividade.
Foi visitando o Museu Hamburger Bahnhof, que pude ver, na coleção permanente, a obra de Joseph Beuys.

Joseph Beuys (1921–1986) é considerado um dos mais influentes artistas europeus da segunda metade do século XX, e o artista plástico alemão mais importante depois da Segunda Guerra Mundial. Com uma personalidade controvertida e um modo muito peculiar de encarar o mundo, foi o inventor do “conceito ampliado da arte”: “Toda pessoa é um artista”, é a sua frase mais famosa.

"Libertar as pessoas é o objetivo da arte, portanto a arte para mim é a ciência da liberdade."


Beuys, foi um questionador por excelência que mostrou com sua obra que está longe o tempo em que teremos uma definição de arte que elimine as controvérsias. Partindo das oposições razão-intuição, frio-calor, ele trabalhou para o restabelecimento da unidade entre cultura, civilização e vida natural, revolucionando as idéias tradicionais sobre a escultura e apontando novos caminhos para a arte em sua constante mutação.
Conta a história que Joseph Beuys foi piloto da Força aérea nazista durante a Segunda Guerra Mundial, e quando seu avião foi abatido sobre a Criméria, ele foi socorrido por nativos que envolveram seu corpo em gordura animal e feltro, materiais que se tornaram constantes em sua obra.
Ele atribuía um grande simbolismo à função física de cada material que selecionava para suas obras. que integram a polaridade metabolismo e neuro-sensorial na filosofia de Steiner.


Joseph Beuys frequentou os grupos de antropósofos em Dusseldorf, articulou a ideia da "unidade na multiplicidade", dos quatro níveis do homem: corpo físico, corpo etérico, corpo astral e o "Eu". A influência da antroposofia de Steiner fica estabelecida na relação que ele trava com a natureza.
O instinto animal, para Beuys era uma forma de inteligência superior, o artista inspirava-se na observação de lebres, pássaros, cavalos, e os demais animais que podia observar e retratava-os em performances, onde questionava que o animal morto pode ser uma obra de arte, no instante em que alguém decide que assim o é.

"Tornai os segredos produtivos."
Confesssares

Quarta-feira, 31 de Outubro de 2007

Outono em Berlim

“Aonde vamos? Não me perguntes! Sobe e desce. Não existe começo, não existe fim. O que existe é o momento presente, e eu o desfruto por inteiro”


Queria perder-me nos largos horizontes do maravilhoso parque Tiergarten, (em alemão: “jardim de animais”), no frio sol de outubro, nessa parte ocidental da cidade de Berlim, onde caminhamos em toda sua extensão rodeados por cores de outono.

O vento ondulava as copas das árvores que deixavam cair folhas de mais diversas tonalidades...
Contemplamos apenas e caminhamos.

“Eu me dou a tudo. Amo, sofro e luto. O mundo me parece mais vasto do que a mente e meu coração um mistério obscuro e onipotente”



“O sagrado tem caule e tem raízes,
É uma presença muda e vegetal...
Folhas - línguas discretas
Que nem mesmo os poetas
Devem ouvir...
A sombra do silêncio a revestir
Os gestos rituais
Dos ramos que são braços actuais
A receber o tempo que há-de vir.”

Quarta-feira, 17 de Outubro de 2007

Teatro Nacional D. Maria II


Em Lisboa, moro na freguesia da Sé, centro histórico, que fica próximo a vários lugares que gosto de visitar.
Sempre que posso, subo a Rua Augusta e vou ao Teatro Nacional D. Maria II, visitar a biblioteca, ver as novidades da livraria e pegar o jornal do teatro, para ler sobre os espetáculos e eventos do momento.
Vou ao teatro D. Maria (como é chamado) assistir aos novos espetáculos que entram em cartaz, os que acho mais interessantes claro, já que temos sempre várias peças de teatro, se apresentando em simultâneo.


Assisti a muitos espetáculo de lugares privilegiados quando tinha em Lisboa, a agência de casting (Casting Design) pois os atores faziam questão de me deixar bem acomodada para apreciar os seus trabalhos e eu usufruia dessa condição com muito prazer.


Vivi muitas estórias no Teatro D. Maria, vou contar algumas… Quando estava fazendo o casting para a novela “Banqueira do Povo”, com a direçao do Walter Avancini, para a RTP 1 , eu queria muito que Eunice Munhoz (“primeira dama” do teatro Português) aceitasse a proposta de fazer o personagem principal da novela. Achei que para eu ser bem sucedida nessa empreitada deveria ir com o Walter, pois ele tinha um bom conceito em Portugal, por causa do sucesso da novela "Gabriela". Ele aceitou a idéia, e fomos juntos falar com ela. Eu que havia visto a Eunice Munhoz, no espetáculo “Mãe Coragem” do Brecht, e que tinha ficada impressionada com sua magnífica atuação,estava na maior torcida para que ela fizesse parte do elenco da novela.
A Eunice munhoz nos recebeu no Teatro D. Maria, em seu camarim, antes do início do espetáculo: “Passa por mim no Rossio”. Quando entramos ela parou a maquiagem, para conversar conosco, a princípio demonstrou que não tinha interesse em fazer novela, mas Avancini foi suficientemente sedutor e conseguimos com que ela aceitasse o convite, e para a felicidade geral, ela fez e muito bem, o personagem Dona Branca, na novela “A Banqueira do Povo".

Devo ainda dizer que graças ao Teatro Nacional D. Maria II, assisti fabulosas palestras, e apresentações inusitadas, tanto nos espaços convencionais quanto nos improvisados, que sempre me conduziram a uma busca incessante dos novos e possíveis caminhos para o teatro.




Fiz em 2006, patrocinado pelo D. Maria, um curso para atores profissionais, de muita qualidade: “O Corpo do Actor” com Gianluigi Tosto, que aproveitou a ocasião da sua estadia em Portugal para transmitir sua técnica.
O ator italiano, estava em temporada no D. Maria, dando voz e corpo aos três textos fundadores do género épico – “Ilíada”, “Eneida” e “Odisseia” - ele sem precisar recorrer a grandes artifícios, acompanhado apenas de meia-dúzia de instrumentos, fez dos três espetáculos rituais inesquecíveis.
No curso deu para perceber a profundidade de sua técnica, sua especial atenção ao treino do corpo e da voz do ator,bem como à interação entre o corpo e a mente. Trabalhamos com extrema sofisticação a voz e o seu controle, bem como a consciência de alguns elementos fundamentais no corpo humano, como a articulação dos membros, ou o alinhamento da coluna vertebral e sua flexibilidade.


Em 2007 foi a vez do brasileiro Aderbal Freire Filho, que trouxe para o Teatro Nacional D. Maria II, seu espetáculo: “O que diz Molero”, do português Dinis Machado, e realizou um curso, "Actor de Teatros” do qual fiz parte entre vários amigos atores.
No curso aprendemos realizar « uma encenação de um texto não teatral, integralmente transposto para o palco», em que tenta «descrever com gestos o que as suas palavras (do texto) vão narrando.» ainda nas palavras de Aderbal:«O “romance-em-cena” assenta assim na imaginação despertada no espectador e nos recursos cénicos que estão ao dispor do ator, fazendo-o, simultaneamente, dizer e mostrar. Acaba por ser a convivência de uma capacidade narrativa e dramática que faz do ator um profissional mais completo. »
Na conclusão da oficina, "Actor de Teatros” fizemos as apresentações na sala experimental do Teatro Nacional D. Maria II, com a presença na platéia de Marieta Severo que muito nos prestigiou e de vários e renomados atores Portugueses.Todos nós, atores envolvidos no projeto, queríamos a continuidade no estudo e nas possíveis montagens.
Durante os ensaios o clima foi sempre de contentamento e satisfação e por isso ficaram as saudades do convívio entre colegas, do trabalho e do tempo passado com o Aderbal. Ficamos todos amigos, trocamos e-mails, e por vezes, promovemos tertúlias em Lisboa para comemorar: Amor, Alegria, Agradecimento e Arte!
Beijares confessares e alegrares

Sábado, 13 de Outubro de 2007

Paulo Auntran

Viva Paulo Autran!!!
Paulo Autran Viva!!!
Morre Paulo Autran,o sinônimo de teatro, um homem único e insubstituível que dignificou a nossa profissão.



Em 13 de dezembro de 1940, subiu ao palco pela primeira vez, interpretando Zeus, na peça “Um deus dormiu lá em casa”, de Guilherme Figueiredo, e morreu em 12 de outubro de 2007, praticamente no palco ,fazendo "O Avarento" , que foi sua 90º montagem teatral.



Ele foi uma grande figura do TBC (Teatro Brasileiro de Comédia), na Companhia Tônia-Cheli-Autran e toda essa geração que trabalhou com os diretores: Ziembinski e Flaminio Bollini, sublinho que nessa época o teatro brasileiro tinha o mesmo valor do melhor teatro mundial!
Alguns dos inúmeros sucessos, de Autran, nos palcos: "Otelo", "Antígone", "My Fair Lady", "Liberdade, Liberdade", "A Morte do Caixeiro Viajante", "Visitando o Sr. Green" e "Adivinhe quem Vem para Rezar".




PAULO - "Sou apenas um homem de teatro. Sempre fui e sempre serei um homem de teatro. Quem é capaz de dedicar toda a sua vida à humanidade e à paixão existentes nestes metros de tablado, esse é um homem de teatro." Na voz de Paulo Autran, essas palavras foram ouvidas nos palcos de dezenas de cidades brasileiras no espetáculo Liberdade, Liberdade, um dos muitos grandes sucessos de sua longa carreira!”

“É pau, é pedra, é o fim do caminho

É um resto de toco, é um pouco sozinho

É um caco de vidro, é a vida, é o sol

É a noite, é a morte, é um laço, é o anzol
”
(Tom Jobim)

Quarta-feira, 3 de Outubro de 2007

“Olhar da Testemunha“ e “CO2 Bruxelas ao Infinito”


Para quem está em São Paulo, tem até o dia 11 de novembro para ver no MUSEU DE ARTE BRASILEIRA DA FAAP, 
a retrospectiva “Olhar da Testemunha“,de Jean-Michel Folon, que reúne 90 obras da coleção de Paola Folon, viúva do artista, com pinturas e aquarelas produzidas a partir da década de 1970




e a coletiva “CO2 Bruxelas ao Infinito”, organizada pelo Espaço Fotográfico Contretype, em Bruxelas, cidade retratada nesta mostra, com 19 fotógrafos europeus em diferentes propostas.


“De onde vêm as idéias? Vêm da observação da vida. Depois os momentos vividos e as coisas sentidas tornam-se lembranças. Lembranças de cidades, de amizade, de amor. Lembranças de luz. São elas que fazem nascer as imagens. E as imagens se misturam na cabeça. E acontece até mesmo de elas tentarem se lembrar das lembranças. Para, por sua vez, se tornarem lembranças.”


“Uma imagem é uma troca. Nós a fazemos e os outros a entendem. É uma garrafa jogada ao mar que confiamos ao acaso. Com a imensa esperança de que alguém a encontre.”
Jean-Michel Folon

Segunda-feira, 24 de Setembro de 2007

Geografia Sagrada


Cromeleque dos Almendres, fica em Portugal, Évora-Montemor, escondido na natureza, onde permanece quase desconhecido, envolto em mistérios e enigmas.



Quando visitei o Cromeleque dos Almendres, senti a potência da natureza local nas pedras que continham as chaves, para uma identidade a ser decifrada…



Gravuras,alinhamentos, entrosamento dos cerca de cem menires, e a evocação de uma mitologia lunar divina,despertavam uma intensa experiência artística.


No recinto de Almendres, a percepção do presente, o espaço, a memória, o precioso estoque de informações do passado... e eu ali com as infinitas possibilidades!
A desconstrução do tempo; a eternidade no instante; o agora; a exaltação da geografia sagrada!


"sacred sites and places are sometimes physically empty or largelly uninhabited, and situated at some distance from the populations for which they hold significance" (Hirsch)

Sexta-feira, 14 de Setembro de 2007

Keith Haring


Remexendo em fotos antigas, encontrei essas que foram tiradas em 1984, dos grafites do Haring, que ele deve ter feito quando veio participar da XVII Bienal de São Paulo, em 1983.
Keith Haring foi sem dúvida um dos artistas mais pop (e populares) dos anos oitenta; não era de se espantar, portanto, encontrar seu trabalho em plena Av. Sumaré em São Paulo.


Haring começou sua carreira desenhando a giz nas estações de metro da cidade, no papel preto que as empresas de publicidade colavam sobre os cartazes caducos.
Enquanto desenhava já sabia que o caminho de sua arte era ir para o lixo, e que o cartaz ficaria apenas um dia ou dois “exposto”.

O muro da Av. Sumaré teve o mesmo destino, apagaram seu grafite. Resta-nos as fotos como recordação da energia desse nova-iorquino que fez da rua o seu suporte para a libertação.




Keith Haring fez fama em Nova York, mas para nossa sorte, espalhou trabalhos pelo mundo todo, antes de sua morte em 1990.
Viva Vida!
Vida Viva!



Esse é o Paulo Labriola que fez as fotos, menos essa claro, que foi feita pelo Gustavo Suárez.

Terça-feira, 11 de Setembro de 2007

Mônica Salmaso e Pau Brasil

Mônica Salmaso revela um Chico Buarque lírico, feminino, com uma sonoridade sofisticada, complementada pelo grupo Pau Brasil, no show: Noites de Gala, Samba de Rua”.
Como sei que Chico Buarque é muito amado, aviso aos amigos sobre o lançamento do CD dedicado às composições dele com o mesmo nome do espetáculo.
Vivi momentos transcendentes no show com a música “Beatriz” (Edu Lobo e Chico Buarque) em que Mônica canta acompanhada ao piano por Nelson Ayres e também com a única música que não é do Chico, a instrumental: “Pulo do Gato” de Paulo Bellinati (violão e cavaquinho).
Toca ainda no grupo, o marido de Mônica, Teco Cardoso (sax e flauta), Ricardo Mosca (bateria e percussão) e um amigo da adolescência, Rodolfo Stroeter (baixo e produção do álbum).
Recomendo!!!

Terça-feira, 4 de Setembro de 2007

"Pedras nos Bolsos"

Marco Antonio Pâmio e Rubens Caribé, dando um show de interpretação, se desdobrando em quinze personagens, no Espaço Parlapatões. É com extrema sensibilidade,que eles exploram as inúmeras possibilidades no trabalho do ator, do corpo, da voz, para contar a estória dos figurantes em um filme romântico americano.
A peça de autoria de Marie Jones (Irlanda do Norte) se passa em uma pequena cidade do interior da Irlanda, onde os personagens principais da peça, Charlie e Jake, paradoxalmente são os figurantes de uma super-produção hollywoodiana.
Através dos diferentes personagens, podemos traçar um paralelo entre o poder do cinema de Hollywood e a televisão Brasileira, além de ver estampada a dura verdade do capitalismo no mundo contemporâneo.
A Trilha Sonora Original, de Ricardo Severo,acrescenta de maneira criativa mais conteúdo ao espetáculo.
Recomendo!

Domingo, 2 de Setembro de 2007

Leo Bassi

Ontem fui assistir Leo Bassi,no Teatro Sérgio Cardoso, o espetáculo: La Revelación,uma experiência com humor sofisticado e cheia de emoções.
Bassi, Ítalo-espanhol, é um palhaço político que deixa claro, que não acredita em Deus, mas em Sócrates, nos cientistas e no amor.
O palhaço-filósofo, chamado por muitos de "palhaço-terrorista", que tem o Papa como o personagem mais engraçado e emblemático, fala de Kant, Voltaire, Auguste Comte, entre outros em sua peça.
Na sua adaptação do espetáculo para o Brasil, ele faz referência crítica a forte presença dos evangélicos, entre os mais pobres e defendeu o pensamento racional, contra a idéia de um deus onipotente.
Aberto a improvisões, Bassi quando terminou o espetáculo,veio à boca de cena e disse que não tinha ficado feliz com o término do espetáculo e pediu para o público acompanha-lo que ele iria dar continuidade na rua.
Bassi e o público ocupou uma boa parte da Av. Rui Barbosa, e ele em cima de um carro fez sua perfomance revolucionária.
Sim, uma experiência cheia de emoções!!! Bravos!!!
Oba! Consegui tirar uma foto dele.

"O Cravo e a Rosa"

O musical infantil, conta a cativante estória de amor entre o cravo e a rosa, e as diferenças e preconceitos que o casal tem que enfrentar. A estória é vivida com alegria e competência por todo o elenco.
A direção impecável, a boa música, o cenário “Pop” e divertido,o figurino a condizer, torna o espetáculo imperdível!

Quarta-feira, 22 de Agosto de 2007

Museu da Língua Portuguesa

Sei que a maioria dos Paulistas já tiveram o privilégio de conhecer o Museu da Língua Portuguesa, mas apresento-o aos meus amigos, que não moram em São Paulo, e não tiveram a oportunidade de visita-lo.

O museu mostra nossa identidade cultural, e expressão lingüística de uma forma interativa, multimídia, levando-nos a um passeio virtual, nas raízes da lingua portuguesa com as influências das diversas famílias linguísticas.

Você pode usufruir dos quatro andares do prédio da Estação da Luz, visitando: a Grande Galeria, a Galeria das Influências, a Linha do Tempo e o Beco das Palavras. Além das áreas para exposições temporárias, (agora com a Clarice Lispector), terminais multimídias e escritórios de gestão de conteúdo.

No primeiro andar você se depara com “A Árvore de Palavras”, de 16 metros de altura, criada pelo designer Rafic Farah, que conta com palavras de seis mil anos de idade, vindas do indo-europeu. No seu tronco, faixas de luzes produzem sombras, dando a sensação das palavras estarem em movimento.

Fica patente, a importância de chegarmos a acordos ortográficos, já que somos cerca de 200 milhões de pessoas que utilizam a língua portuguesa diariamente em todo o mundo.
Atualmente, o português é a língua oficial de oito países, dos quatro continentes: Portugal, Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Guiné Bissau, Cabo Verde, Timor Leste e Brasil.


A vitalidade de uma língua é a vitalidade de um povo. Que este Museu amplifique e ressoe a voz da Língua Portuguesa no mundo". (Gilberto Gil)

É um programa imperdível, para repetir várias e várias vezes!
Recomendo!!!

Quarta-feira, 15 de Agosto de 2007

"Clarice Lispector-A Hora da Estrela"

Se acaso você ainda não teve a oportunidade de ir ver a exposição:“Clarice Lispector- A hora da Estrela”, não deixe de ir; fica até o dia 02 de setembro no Museu da Língua Portuguesa.

Protelei minha ida, talvez por pressentir o impacto desse momento tão especial...
“Cada coisa tem um instante em que ela é. Quero apossar-me do é da coisa”

A exposição retrata a vida e obra de Clarice Lispector, escritora ucraniana, que foi criada no Brasil desde o primeiro ano de vida, escreveu 26 livros,e foi traduzida em 15 línguas.

“Amo a língua portuguesa. (...) Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida” –


Na exposição você é recebido pela Clarice em preto e branco, e pelas frases intensas, que ficam atrás das imagens de seu rosto.
A próxima sala, totalmente branca com uma cama no centro surge em oposição à primeira sala escura, essa com frases fortes de Clarice nas paredes marcadas em gravura.

“Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou mais completa quando não entendo".


Na cenografia,da terceira sala, que me remeteu a essa pintura de Salvador Dali, você vê duas mil gavetas, dispostas em um gigantesco armário. Você pode abrir sessenta e cinco delas, e cada gaveta traz um pouco da vida da escritora: documentos oficiais, escritas de Lispector, reportagens, fotos, cartas de amigos, fotos dos filhos...
Impressionante!

Sei que os mistérios particulares são a essência da obra de Clarice Lispector, mas tive uma sensação estranha de estar invadindo a vida dela... Não sei explicar, ficava perguntando se tinha o direito, de ver os documentos ali dentro daquelas gavetas, expostos à uma luz intimidante... Havia em mim uma dualidade, admirava todo aquele maravilhoso material, mas me perguntava se a luz não iria estraga-los...
Podia eu ler as cartas deliciosamente carinhosas que ela escreveu para seu marido, o diplomata Maury Gurgel Valente?

Pude ver ainda, para minha alegria, Clarice no único documento que a mostra em movimento, em entrevista dada à TV Cultura no ano de sua morte (1977)
Entre as pérolas da entrevista:"Eu escrevo simples, eu não enfeito”

RECOMENDO!!!

Terça-feira, 7 de Agosto de 2007

Palo Borracho

Andando pelas ruas de Buenos Aires você se depara com a simpática Palo Borracho. Perguntei para alguns locais o significado da àrvore ser “borracho”(como vocês sabem, significa bêbado), uns disseram que era devido a forma do tronco lembrar uma garrafa, e outros enfatizavam que ele era torto, rsrsrsrs
Independente de quem esteja com a razão, acho que a àrvore fornece uma característica muito peculiar à paisagem de Buenos Aires.


Você identifica o palo borracho pela forma do tronco, que se apresenta mais largo em sua parte central.
No Palo Borracho Blanco, o Amarillo, o alargamento é mais acentuado que das outras espécies dando-lhes uma forma de “botella” (garrafa).

Quando os exemplares tomam uma altura considerável, pode chegar aos 15 m!

Na Argentina é comum você encontrar ninhos de pássarinhos, nessa árvore, já que seu tronco cheio de espinho pode proteger as crias, dos depredadores.
Adorei!
Beijares e abraçares

Segunda-feira, 6 de Agosto de 2007

Malba-Museu de Arte Latino-americana de Buenos Aires

Estar em Buenos Aires com um Argentino, apreciador da arte é um privilégio! Ainda mais quando as fotos são tiradas por ele: Gustavo Suárez. Compartilho nossa ida, ao Malba (Museu de Arte Latino- americana de Buenos Aires), inaugurado em 2001, que mantém a coleção Constantini em seu acervo oficial.


O Malba abriga uma rica coleção de quadros e esculturas, são mais de 222 peças, colecionadas por Eduardo F. Constantini desde 1971, se constituindo como a mais completa visão da arte do século 20 na América Latina. Os brasileiros estão em peso no Malba: Tarsila do Amaral, Lygia Clark, Hélio Oiticica, Antônio Dias, Wanda Pimentel, Nelson Leirner, e Waltercio Caldas, entre outros.




Dentre as obras representativas do museu adorei ver um dos mais famosos trabalhos da mexicana Frida Kahlo, Autoretrato com chango y loro (1942), em que ela está com um macaco e um papagaio nos ombros, e Manifestación (1934), de Antonio Berni. Esta última me impressionou pela destreza das cores e pelos fortes traços dos rostos humanos.


Foi um grande prazer ver de perto,uma das obras mais importantes do modernismo, Abaporu (1928), de Tarsila do Amaral! O quadro que serviu como inspiração e como síntese do Manifesto Antropófago criado pelo Oswald de Andrade.
Foi uma tristeza,constatar que um quadro tão importante para o nosso País,é coleção permanente do Malba.
Sim. É triste perceber que nosso País não está capacitado para conservar sua própria história e que deixamos ir embora um patrimônio dessa grandeza!

Quanto ao Museu Malba: Recomendo!!!

Quarta-feira, 1 de Agosto de 2007

Michelangelo Antonioni

O cinema europeu ficou sem duas das suas mais significativas personalidades, Antonioni, morreu algumas horas depois do diretor sueco, Ingmar Bergman. Devo muito, de minha formação a esses dois ícones da avant-garde!
Michelangelo Antonioni, foi uma das mais fortes referências artisticas em minha vida. Com suas tomadas de cenas longas, a ação cortada ao mínimo, o estilo abstrato, o diálogo esparso e com uma implacável exploração das doenças existenciais do homem moderno, esse grande explorador da expressão foi uma presença constante.
Agradeço com amor e arte!

Segunda-feira, 30 de Julho de 2007

Ingmar Bergman

Ingmar Bergman morreu hoje de manhã na ilha sueca de Faarö (Gotland), anunciou hoje a filha Eva Bergman à agência sueca TT.

Bergman que abordou temas relativos à existência humana, como morte e religiosidade,nos deixou com a sensação de que tinha ainda muito a nos dizer. Cineasta que rompeu as fronteiras do cinema sueco e atingiu a universalidade e que em sua longa cinematografia (que ultrapassa os 50 filmes),foi mestre em levar às telas temas existencialistas. Ao todo, ganhou sete prêmios no Festival de Cannes e dois no de Berlim.

Bergman nos mostrou que: "Tudo pode acontecer, tudo é possível e provável. O tempo e o espaço não existem. Sobre um ligeiro fundo de realidade, a imaginação tece sua teia e cria novos desenhos... novos destinos"."O Sonho", de Strindberg

“Torre de Babel” e “Cosmos: Três Olhares Sobre a Rússia”

Fui na inauguração das duas exposições da Pinacoteca do Estado de São Paulo, neste sábado: “Torre de Babel”, de Geraldo Souza Dias, e “Cosmos: Três Olhares Sobre a Rússia”, com fotografias de Maurícia Nahas, Paulo Mancini e Ricardo Barcellos.


A instalação de Geraldo Souza Dias: “Torre de Babel” lembra o mito da torre onde as nações se separaram e retrata questões formais e teóricas. São 276 pinturas e 249 chassis sem telas.

”Cosmos: Três Olhares Sobre a Rússia” é uma mostra com 190 imagens que marcam a segunda fase do projeto “Era Uma Vez em Havana”, onde mostra os países socialistas no mundo. Os três fotógrafos trouxeram imagens da cultura, arquitetura e paisagens locais, captadas na viagem que fizeram à Rússia em agosto de 2006.
Recomendo!

Sábado, 21 de Julho de 2007

Odin Teatret e Fernando Pessoa

"Cada um de nós é vários, é muitos, é uma prolixidade de si mesmos .
Minha alma é uma orquestra oculta; não sei que instrumentos tange e range, cordas e harpas , tímbales e tambores , dentro de mim. Só me conheço como sinfonia." Fernando Pessoa

Grotowski sempre marcou a minha maneira de ver, pensar e fazer teatro, por isso estudei por várias vezes com Eugênio Barba, (seu seguidor) no Brasil, Portugal e Dinamarca.
Quando fui estudar no Odin Teatret, em Hostebro, Dinamarca, o que mais me surpreendeu foi a “Torre de Babel”, a multiplicidade de línguas com as quais nos comunicávamos. Eram atores provenientes da Noruega, Tchecoslováquia, Itália, Espanha, Dinamarca, França, E.U.A., e outros...
Para nos comunicarmos, misturávamos as mais variadas línguas...
Sentindo que isso aflorava em mim uma forte sensação musical, resolvi pegar a poesia acima, de Fernando Pessoa, distribuir entre os atores e fazer uma experiência: cada ator falava a mesma poesia traduzida para sua língua natal e eu ia regendo de acordo com minha intuição...
Pena que não gravamos, registro como lembrança de uma rica experiência.
Indescritível!!! Adorei!!!

ODIN TEATRET Nordisk Teaterlaboratorium
Grupo criado há mais de 40 anos pelo diretor italiano Eugenio Barba
Sediado na pequena cidade de Holstebro, na Dinamarca.

Segunda-feira, 9 de Julho de 2007

Flip na TV Cultura

Esse ano na Flip predominaram mesas que debateram obras e heranças literárias. O que mais me tocou, já que faz parte das minhas paixões, foi o fato deles terem focalizado a atenção no papel das letras no teatro, na poesia e na música.
Viva Arte! Arte Viva!
Acompanhem a FLIP agora pela TV. Recomendo!

EXIBIÇÃO DAS ENTREVISTAS NA TV CULTURA:
Guillermo Arriaga: segunda-feira (09/07), às 22h40
Mia Couto: , terça-feira (10/07), à 00h30
Amóz Oz: quarta-feira (11/07), à 00h30
Nadine Gordimer: quinta-feira (12/07), à 00h30
Robert Fisk e Lawrence Wright: sexta-feira (13/07), à 00h30
Beijares e abraçares

Sábado, 7 de Julho de 2007

Festival Intercâmbio de Linguagens
Nos palcos cariocas,(de 27 de julho à 5 de agosto), se apresentam os grupos internacionais originários do Canadá (Cia. La Pire Espece e Cia Dynamo); da França (Filiiip Paris Show) e Cia. Arcosm (Echoa); do Peru (Cia. Hugo e Ines); do Uruguai (El Maranga Andarillo) e da Espanha (Cia. Maria Parrato e La casa Incierta) e 16 companhias nacionais.




Paralelamente acontecem as oficinas de: ópera; teatro físico; fotografia; dança mix e sapateado; teatro do objeto; leitura de texto; work-in-progress; exposição fotográfica, e o lançamento do Fórum Cultura Infância.
A sede do Festival é no Centro de Referência do Teatro Infantil/ Teatro Municipal do Jockey, onde acontece a maioria das encenações.
Recomendo!

Quarta-feira, 4 de Julho de 2007

Mia Couto na FLIP

Sotaque da terra

Estas pedras

sonham ser casa

sei
porque falo
 a língua do chão

nascida

na véspera de mim

minha voz
 ficou cativa do mundo,

pegada nas areias do Índico

agora,

ouço em mim

o sotaque da terra

e choro

com as pedras

a demora de subirem ao sol

A Festa Literária Internacional de Parati (FLIP) recebe Mia Couto, uma das vozes mais originais da literatura africana de expressão portuguesa. Adoro o trabalho dele, por isso quero dar destaque a sua estadia no Brasil.
Na sexta-feira (06/07), às 10h, será gravada uma entrevista, que irá ao ar na TV cultura na terça-feira (10/07), à 00h30.
Para os amigos que puderem, não deixem de ir à Parati para ouvir Mia Couto.
Para os amigos que estão em São Paulo, não percam a entrevista na TV Cultura.
Para os amigos de todos os lugares do mundo, não deixem de ler Mia Couto!!!
Recomendo!!!

Domingo, 1 de Julho de 2007

"A fotografia é o inconsciente da visão"

Como vocês sabem adoro fotografia e sua relação com o tempo, onde depois que tudo desaparece, fica aquele momento que ocorre em uma fração de segundo...Trata-se de uma luta contra o tempo, que por sua vez, é uma invenção do homem. Fiz essa fotografia inspirada em Cartier Bresson.
Para Cartier-Bresson, “É preciso estar disponível. É preciso olhar. Há muito poucos que olham, vêem, identificam.” Ele diz ainda que: " A fotografia é a impulsão espontânea de uma atenção visual perpétua, que segue o instante e a sua eternidade. O desenho, por sua grafologia, elabora aquilo que a nossa consciência procurou deste instante. A foto é uma ação imediata; o desenho, uma contemplação.”

Quinta-feira, 28 de Junho de 2007

Pinacoteca

Fico sempre com saudades da Pinacoteca, quando estou longe de São Paulo… Esse prédio com suas paredes de tijolos não revestidos e amplas janelas incorporadas ao referencial urbano, foi projetado por Ramos de Azevedo em 1897, para abrigar o Liceu de Artes e Ofícios.
Faço reverência ao arquiteto Paulo Mendes da Rocha, que fez o projeto de reforma, com o qual ganhou o prêmio Mies van der Rohe de arquitetura em junho de 2000, porque fez da Pinacoteca uma grande referência à cidade.
O museu tem cerca de 6 mil peças, entre pinturas, esculturas, colagens, desenhos, tapeçarias, porcelanas e louças. Com um perfil definido da arte brasileira do século XIX até a contemporânea é motivo de orgulho especialmente para São Paulo, uma vez que reúne trabalhos de artistas paulistas, como Almeida Júnior, Pedro Alexandrino e Oscar Pereira da Silva, além de obras representativas de Cândido Portinari, Anita Malfatti, Victor Brecheret, Tarsila do Amaral e Di Cavalcanti.
O passeio é imperdível! Recomendo!!!

Sábado, 23 de Junho de 2007

“A fotografia é a filosofia de nosso tempo.”

Fiz praticamente todas as fotos desse blog, mas essa que não é de minha autoria, compartilho porque me levou a pensar a fotografia. Ela me conduziu a sensações, ao abstrato, ao aberto, me instigando as mais diversas interpretações. E o pensamento voou e me levou a um personagem, uma época e a muitas cenas…
Fragmentos de um mundo que já não existe?!
Pensar essa fotografia é pensar o ser humano e sua história.

Quinta-feira, 21 de Junho de 2007

Expectadora de mim mesma

Eu tenho sempre vontade de captar o instante já, o momento preciso, o aqui e agora como se fosse possível apreender essa tênue realidade do tempo.
Tentar registrar tudo é típico de minha natureza e ponho olhos na alma para compartilhar esse sintoma em forma de imagens.

"Eu tenho uma espécie de dever....de dever de sonhar, de sonhar sempre, pois sendo mais do que uma expectadora de mim mesma, eu tenho que ter o melhor espetáculo que posso!
E assim me construo a ouro e sedas, em salas supostas, invento palcos e cenários para viver meu sonho entre luzes branidas e músicas invisíveis"
Fernando Pessoa

Quarta-feira, 20 de Junho de 2007

Jenny Klabin Segall e sua neta

As pessoas ao redor da Lucia sempre diziam que ela era parecida com a avó...resolvemos registrar...

Como vocês sabem uma boa parte de minha fonte de inspiração vem dos museus e seus artistas...
Tive a sorte de minha grande amiga ter avós inspiradores nesse sentido, o que me proporcionou um acesso mais íntimo à obra deles. Começo pela parte feminina, de quem sou fã incondicional, sua avó: Jenny Klabin Segall.

Jenny Klabin Segall escritora, tradutora de clássicos do teatro alemão e francês, esposa de Lasar Segall e idealizadora do Museu Lasar Segall.

Segunda-feira, 18 de Junho de 2007

Yo-Yo Ma

Fiquei com a sensação de ter chegado atrasada em São Paulo,pois todos os ingressos para assistir Yo Yo Ma já estavam esgotados.
Ele fará três recitais em São Paulo, onde irá Interpretar Schubert, Shostakovich, Piazzolla e Egberto Gismonti, demonstrando sua paixão pela música brasileira. Estará com ele a pianista Kathrin Stott, com quem vem se apresentado em todo o mundo. Ela participou dos dois discos que Yo-Yo Ma dedicou à música brasileira, Obrigado Brazil! e Obrigado Brazil Live in Concert, ambos com a presença de artistas como os irmãos Assad e Luciana Souza.


Yo-Yo Ma não surpreende somente pelo seu grande talento,mas por ser um dos poucos artistas da música clássica a ter explorado repertórios e sonoridades, sem receios,e em contínuo crescimento artístico.

Para quem, como eu, não for ver o concerto, resta-nos a possibilidade de ouvi-lo em casa. Sempre vale a pena!

Sábado, 16 de Junho de 2007

Conspiração de Nuvens


“Fiquei olhando para os meus sapatos, despojados sapatos de andanças, tantos caminhos e descaminhos!

E agora esse invasor estava querendo as pistas. A solução era prosseguir devaneando, contar por exemplo que num jardim em Paris encontrei o mais otimista dos relógios, era grandalhão, antiquado e contornando o mostrador tinha uma frase em latim, Horas non numero nisi serenas, ou seja, conto somente as horas felizes.”


Lygia Fagundes Telles lançará em setembro na Bienal do livro do Rio, seu próximo livro: Conspiração de Nuvens, que terá recordações trabalhadas com poesia, acima um pequeno trecho. Aguardo ansiosa, já que ADORO o trabalho de Lygia Fagundes Telles!

Quinta-feira, 7 de Junho de 2007

Partir!


Partir!
Nunca voltarei,
Nunca voltarei porque nunca se volta.
O lugar a que se volta é sempre outro,
A gare a que se volta é outra.
Já não está a mesma gente, nem a mesma luz, nem a mesma filosofia.

Partir! Meu Deus, partir! Tenho de partir!
(Fernando Pessoa).

"AH, TODO O CAIS É UMA SAUDADE DE PEDRA."(Fernando Pessoa).

Casa dos Bicos

Moramos perto da Casa dos Bicos, que foi construída em 1553!
Dizem que o proprietário da Casa dos Bicos, mandou-a construir depois dele ter visto pela primeira vez o Palácio dos Diamantes ("dei diamanti") de Ferrara e o Palácio Bevilaequa, em Bolonha. Como a casa era bem menor que estes palácios, a distribuição irregular das janelas e das portas, todas de dimensões e formatos distintos, dão um certo encanto, principalmente pelo traçado das janelas dos andares superiores.

Quarta-feira, 6 de Junho de 2007

Santo António


Lisboa, comemora o dia 13 de junho como o dia de seu santo mais querido e popular: O Santo António.
A festa não passa de um agradável feriado em honra de Santo António, onde se aproveita para ir comer caldo verde e sardinhas assadas, de preferência junto aos bairros da Sé (onde moro) e também a ver as marchas populares.
As crianças já não pedem umas moedas para enfeitar o trono do Santo, como também se fazia no nordeste brasileiro, e as meninas solteiras provavelmente já não lhe pedem um namorado. 
No Brasil, esse santo é conhecido como casamenteiro...Tanta popularidade, oitocentos e dez anos depois do seu nascimento, recordamos aspectos da vida deste santo, passada entre Lisboa, Coimbra e Pádua.

Museu Nacional de Arte Antiga





Devo dizer que os lisboetas não dão muita atenção ao Museu Nacional de Arte Antiga, assim como muita gente que visita Lisboa não dá a mínima para ele. É uma pena. Há muitos motivos para ir até esse importante e charmoso museu da rua das Janelas Verdes.

O principal motivo é que o museu abriga os "Painéis de São Vicente" (século 15), um políptico (várias telas retratando um só tema) de Nuno Gonçalves, obra que tem tanta importância artística quanto histórica, foi visto como um precursor de Velázquez.

As obras de Nuno Gonçalves são o destaque da ala de pintura portuguesa dos séculos 15 e 16 -pintura, aliás, muito pouco conhecida e, por isso mesmo, menosprezada. Vale a pena se ater ainda à "Anunciação", de Frei Carlos, à "Deposição no Túmulo", de Cristóvão de Figueiredo, ao "Retrato de D. Sebastião", de Cristóvão de Morais, e ao tríptico "Cristo Deposto da Cruz, São Francisco e Santo Antônio", de Vasco Fernandes.

O museu tem uma das mais belas e intrigantes representações do Cristo: um "Ecce Homo", chamada também de a "esfinge da arte cristã", feito em Portugal por autor desconhecido, na segunda metade do século 16. Só esta imagem, já justifica a sua ida ao museu.
Tem ainda: "As Tentações de Santo Antão" (cerca de 1500), de Bosch. O museu, embora pequeno, guarda quadros de Brueghel, Piero della Francesca, Dürer e outros.

As coleções de escultura, ourivesaria (com 3.200 peças) e sobretudo de arte oriental (dos séculos 16 e 17, proveniente da Índia, do Japão e da China) são um deslumbramento.

Se você ainda necessita de mais uma justificatva: junto ao museu está a magnífica capela das Albertas, iniciada no século 16 e uma das jóias da arquitetura portuguesa!

Recentemente ele foi reaberto com reformulações, com uma nova abordagem que o deixaram ainda mais atraente. Recomendo!!!

Terça-feira, 5 de Junho de 2007

O Museu e a praça





A Rua São João da Mata faz esquina com a Rua das Janelas Verdes, cheia de charme onde se situa o Museu Nacional de Arte Antiga, vulgarmente 
conhecido por Museu das Janelas Verdes.
Marcava minhas reuniões de trabalho no jardim desse Museu, onde havia um restaurante e café. A vista maravilhosa com a luz de Lisboa, rodeada por arte, trazia para o trabalho uma atmosfera criativa e alegre, eu achava tudo isso um grande previlégio e usufruia.

Levava meu filho, quando criança para brincar no jardim onde encontra-se o Museu Nacional de Arte Antiga. Nesse jardim temos um miradouro com vista privilegiada para a margem sul do rio Tejo
Devo registrar que só tenho boas recordações em relação a esse museu e seus aredores.

Subindo a rua...



Continuando pela a linha do elétrico nessa próxima rua….
Tinha o alfarrabista, que no Brasil chamamos de sebo, onde eu vivia “fuçando” em busca de raridades, por preços ótimos.rs

Externato O Formigueiro


A escola de meu filho era o motivo principal de nós subirmos a rua todos os dias, ele estudou lá de 1988 até 1997!

Santos-O-Velho



Morei 8 anos em Santos-o-Velho, que é uma freguesia portuguesa do concelho de Lisboa, na Rua São João da Mata.

Prédio estreito



Quando você sobe a rua, na esquina, encontra um dos prédios mais estreitos do mundo.rs

Terça-feira, 29 de Maio de 2007

Antes de adormecer

“Dar a mão a alguém sempre foi o que esperei da alegria. Muitas vezes antes de adormecer - nessa pequena luta por não perder a consciência e entrar no mundo maior - muitas vezes, antes de ter a coragem de ir para a grandeza do sono, finjo que alguém está me dando a mão e então vou, vou para a enorme ausência de forma que é o sono. E quando mesmo assim não tenho coragem, então eu sonho" (Clarice Lispector)

Provérbio e Cantares


Ontem eu sonhei que via
a Deus e que a Deus falava;
e sonhei que Deus me ouvia...
Depois sonhei que sonhava.

A noite sonhei que ouvia
a Deus , gritando-me: Alerta!
Logo era Deus quem dormia
e eu gritava: Desperta!
(Antonio Machado)

Segunda-feira, 28 de Maio de 2007

Sonho de Chuang Tzu


“Chuang Tzu sonhou que era uma borboleta e não sabia, ao acordar, se era um homem que tinha sonhado ser uma borboleta, ou uma borboleta que agora sonhava ser um homem”
Herbert Allen Giles, Chuand Tzu (1889)

Sonho


“Quando era garoto, Bertrand Russell sonhou que encontrou os papéis que havia deixado sobre a mesinha de seu quarto de colégio encontrava um onde se lia: “o que diz do outro lado não é verdade”. Virou o papel e leu: O que diz do outro lado não é verdade”. Apenas acordou, procurou o papel na mesinha. O papel não estava ali.”
Rodericus Bartius, Los que son números Y los que no lo son

Viajar! Perder países!

Vivo viajando, é verdade...
Para falar sobre isso,só
as pessoas de Pessoa:

Viajar! Perder países!
Ser outro constantemente
Por a alma não ter raízes
De viver de ver somente!
Não pertencer nem a mim!
Ir em frente , ir a seguir,
A ausência de ter um fim ,
E da ânsia de o conseguir!
Viajar assim é viagem!
Mas faço-o sem ter ti meu
Mas que o sonho da
passagem .
O resto é só terra e céu.


Partir!
Nunca voltarei,
Nunca voltarei porque nunca se volta.
O lugar a que se volta é sempre outro,
A gare a que se volta é outra.
Já não está a mesma gente, nem a mesma luz, nem a mesma filosofia.

Partir! Meu Deus, partir! Tenho de partir!

( Fernando Pessoa )

Segunda-feira, 21 de Maio de 2007

Cemitério de Finisterre de César Portela



Gostei do Cemitério de Finisterre de César Portela, como instalação de um cenário cósmico, como um projeto de romantismo sinistro na arquitetura e sua relação com a natureza.
O cemitério fica integrado pelo mar, pela montanha e pelo céu, consta que foi inspirado nos arcaicos sepultamentos celtas.

Fredy Massad e Alicia Guerrero Yeste, no livro “Enric Miralles: Metamorfosi do paesaggio”, : “A idéia do infinito na morte, a inquietude que inspira imaginar a infinitude da eternidade, ganha um impressionante símbolo no cenário cósmico criado pela ilimitada extensão do céu e do mar entre os quais se situa e se compõe o Cemitério de Finisterre de César Portela.
César Portela faz com que o fundamento deste cemitério sejam as ressonâncias emotivas despertadas e alentadas pela forte paisagem, "buscando a transcendência do lugar até o silêncio", apelando pela esperança mediante uma obra na qual a arquitetura quer se dissolver caladamente na natureza como símbolo de silêncio, ausência e memória.”

Sexta-feira, 18 de Maio de 2007

Brad Mehldau



Brad Mehldau vem novamente à Lisboa, agora com Pat Metheny e grupo, no dia 08 de julho, no Aula Magna, a não perder…

Brad Mehldau é considerado atualmente um dos mais geniais pianistas de jazz do mundo, com formação clássica, apaixonado pelo jazz, com influências tão variadas como: Schumann, Bill Evans, Beethoven, e Keith Jarrett .
Eu o ouvi a solo, no Auditorio do Centro Cultural de Belém, em Lisboa, no começo desse ano, sem qualquer interação com outros músicos, sem nenhuma contribuição alheia, era ele isolado frente ao teclado. O teclado era o mundo, o Cosmos, o Universo, o Supra-Universo, o Infinito! Exagero? Não.
Ouvir Brad Mehldau é ter uma experiência única, sua transcendência de improvisação, a escolha em explorar sempre o novo, o caminho que ninguém percorreu, faz da sua total entrega uma aventura.
Durante o concerto, ele partia por vezes, de pequenas ideias que iam crescendo, tomando corpo, e com apurada técnica nos conduzia à plenitude!
Quando sua expontâneidade o levava para um beco saida, ele aí nos surpreendia mais ainda, resultando sempre numa atmosfera de extrema ousadia e conclusão exuberante.
Pensei em alguns momentos do concerto, que talvez keith Jarret na sua melhor fase, poderia ser comparado a genialidade do Brad mehldau.
Lembro que quando ele tocou: No Moon at All, achei que o concerto chegara ao fim e que eu podia ir embora conservando aquela sensação maravilhosa por muito tempo, ele então tocou, Budo de Baden Powell, foi então que se deu o pleno êxtase!
A plateia não parava de aplaudir, ele tocou uma série de “encores”, mas o entusiamo do público fez com que ele retornasse ao piano muitas vezes correspondendo plenamente aos esfusiantes aplausos.
Sim. Aplaudo, peço bis. Recomendo Brad Mehldau!!!

Segunda-feira, 14 de Maio de 2007

"Love" Beatles


A música é minha grande paixão! Esse tema é tão vasto que tenho adiado, mas vamos começar por um som leve e de aceitação quase geral, acho que vocês já conhecem esse som, mas como tenho ouvido nesses últimos tempos, vou falar dele: o cd "Love" produzido por George Martin (com a ajuda de seu filho Giles) é a trilha sonora de um espetáculo do Cirque du Soleil feita de remixes dos originais dos Beatles. Com o consetimento de Ringo Star, Paul McCartney e Yoko Ono, pai e filho tinham à sua disposição o material exclusivo da gravadora Apple, gravado nos estúdios Abbey Road pela banda mais famosa do mundo. Colocando vários elementos de uma música em outra, misturando tudo com sutileza e riqueza musical, as sonoridades ficaram inéditas. Há algumas músicas em que percebemos trechos de cinco, seis canções diferentes! O disco coloca os Beatles com um timbre de banda contemporânea! Adorei!!!

Uma flor para você

Queria trazer uma flor pra você,
mas não era uma flor qualquer,
mas sim uma flor raríssima!
Achei então um vaso enorme com a
flor da sua imaginação.

"Eu sou noite p'ra aurora
pedra de ouro no caminho
sei a beleza do sapo
a regra do passarinho
acho a sisudez da rosa
o brinquedo dos espinhos"

Domingo, 13 de Maio de 2007

Columbano Bordalo Pinheiro



O Museu do Chiado-Museu Nacional de Arte Contemporânea presta um tributo à Columbano Bordalo Pinheiro (1857 ñ 1929), no momento em que se assinala o 150 aniversário do seu nascimento, prestando assim homenagem a uma grande figura da história da arte portuguesa.Autor de obras como: O Grupo do Leão (1885), Concerto de Amadores (1882) ou Retrato de Antero de Quental (1889), professor na Escola de Belas Artes e director deste museu entre 1914 e 1929.

A exposição está estruturada em seis núcleos: A Formação, O pintor radical da vida pequeno-burguesa, Em Paris, capital do sÈculo XIX, A Pintura Moderna, Um Inventário dos EspÌritos, Ao Correr do tempo.
Vocês podem ver essa exposição até o dia 27 de Maio, no Museu do Chiado.
Recomendo.

Museu do Chiado



Museu do Chiado



Domingo dedicado a um dos museus,daqui de Lisboa, que mais gosto: O Museu do Chiado- Museu Nacional de Arte Contemporânea, que fica no Centro histórico. Ele foi fundado em 1911 como Museu Nacional de Arte Contemporânea, e foi inteiramente reconstruÌdo em 1994, sob projeto do arquiteto francês Jean-Michel Willmotte, e ficou lindo!

Dia das Mães


Para todas as mamães: Feliz Dia das Mães!!!
Beijares e abraçares ao milhares

Sábado, 12 de Maio de 2007

Katharine Hepburn


O mito Katharine Hepburn completaria hoje 100 anos

Centenário do criador do Tim Tim

Sexta-feira, 11 de Maio de 2007

Dias felizes



O dia está a chegar ao fim. Mas se calhar ainda é um bocado cedo para a minha canção. Cantar cedo demais é funesto, sempre achei. Por outro lado, às vezes deixa-se passar a altura. Toca para dormir sem se ter cantado. O dia acaba por passar completamente, para sempre, e não houve canção, seja de que espécie for.

Dias Felizes, Samuel Beckett

Quinta-feira, 10 de Maio de 2007

Play again

Play, adaptação de Anthony Minguella, com Alan Rickman, Kristin Scott Thomas e Juliet Stevenson. Play foi escrita por Beckett entre 1962 e 1963.

Foi o filme que mais me marcou na exposição "Samuel Beckett" no Centro Pompidou.
Tive um impacto com a imagem conseguida pelo Anthony Minguella. Na sequência veio a musicalidade das palavras, com seu ritmo peculiar. Beckett gera uma impossibilidade de movimento dos atores, e com rigor técnico faz da luz, o agente externo que conduz à palavra.
Vemos desencadear: a solidão das personagens,a obsessão de suas mentes, a necessidade de reconhecimento das suas almas, a busca desenfreada de comunicação, e por fim a paz.

Play by Samuel Beckett

Amphithéâtre Fondation Pour L'art Contemporain

Caminhando


Estou a caminho... andei, andei,andei...
A exposição sobre o Becket me deixou com tanto material...
Prometo que vou organiza-lo e trarei logo que estiver pronto.
Tenho a certeza que valerá a espera!
Beijares e abraçares

Mnemopark, um mundo de trem em miniatura.



Assisti em abril esse espetáculo, mas os amigos continuam fazendo perguntas sobre ele. Eu percebo, ele provoca muita curiosidade. Querendo você pode obter muitas informações no Google.
A direção é de Stefan Kaegi. Em cena estende-se um gigantesco complexo de trens-miniaturas: trinta e sete metros de via férrea, montanhas, florestas e casas… O espectador volta a ser criança, é muito lúdico.
Cinco Suiços aposentados e apaixonados pelo modelismo evocam sua prática. Uma curiosa viagem através de uma curiosa Suíça. As paisagens vêm das recordações e recuam até os anos quarenta, é o que dá o título ao espetáculo: Mneenopark é o parque da memória.
Através do modelismo se mostra certos aspectos da mundialização que não são a princípio visíveis, mas durante o espetáculo isso fica muito evidenciado.
O diretor utiliza durante todo o espetáculo e ao vivo: video e música de uma maneira muito original. A camera fica dentro dos vagões dos trens e a imagem é projetada em um grande ecrã.
Teatro Vivo. Adorei!
Beijares e abraçares

Quarta-feira, 9 de Maio de 2007

Vim só agradecer...



Vim só agradecer todos os scraps carinhosos que recebi no orkut...
"E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé"
Beijares e abraçares a todos

Exposição de Samuel Beckett



Samuel Beckett (Dublin, 1906 - Paris, 1989)

"Sempre tive a sensação de que em mim havia um ser assassinado. Assassinado antes de nascer. Eu tinha de reencontrar esse ser assassinado, voltar a dar-lhe vida."

A exposição sobre a obra de Samuel Becket que vimos na galleria 2, do Centro Pompidou, mostra um novo olhar sobre o autor. Para mostrar seu percurso, reune documentos excepcionais, como manuscritos e arquivos audiovisuais mostrados pela primeira vez na França, o seu país de adoção..

Um espaço muito importante é dedicado ao teatro apresentando arquivos audiovisuais raramente difundidos, e muitos documentos inéditos.
Vimos ainda quatro audiovisuais geniais, que o Becket fez para o canal de televisão Inglês e Alemão.

Alain Feischer, criou Uma instalação para a exposição, propondo uma interpretação do Universo de Becket como um grande livro aberto e Jérôme Combier associa a leitura de L''Impromptu d''Ohio à uma criação para um trio de cordas.

Adorei a sensação de estar tão perto de Beckett com o trabalho de Claudio Parmiggiani, Silêncio, sobre um arquivo sonoro inédito: “La voix de Beckett lisant Lessness”.