
A sala estava cheia, as espectativas altas, havia uma excitação no ar, na seleta plateia de convidados da classe teatral e, amigos. Havia também, uma imensa torcida para que tudo saisse bem, os comentários a volta eram todos de incentivo.
Não estive na estréia, dessa peça, em Nova York com a atriz Vanessa Redgrave, nem consegui ver esse texto, com a amiga Imara Reis, em sua montagem em São Paulo, mas tive o privilégio de ver Eunice atuando de maneira impecável, com momentos de grande valor artístico.
Eunice, que prima pelo bom gosto de repertório, comprometida que sempre foi com a arte, brilhou especialmente nessa noite, com verdadeira paixão, que temos que ter pelo teatro.
A autora, jornalista, guionista, dramaturga, Joan Didion, escreveu uma história de amor, dessas que se conta à volta da lareira.
No centro do palco, Eunice sentada numa poltrona, falando para a plateia, explica que “Pensamento Mágico", é uma expressão que aprendeu em Antropologia, usada em tribos que acreditavam que, se fizessem um sacrifício a uma divindade, um desejo seria concretizado.
Em “O Ano do Pensamento Mágico", Joan Didion conta como a morte súbita do marido, o escritor John Gregory Dunne, com quem viveu cerca de 40 anos, seguida da morte da filha, Quintana, se refletiram na sua vida.
Ficamos a pensar sobre o acaso, o amor, a impermanência, a impotência perante a perda, em nossas relações profundas.
Fomos durante todo o tempo da peça, embalados, pela voz da Eunice coberta de musicalidade e profundidade.
Diogo Infante em sua direção sutil, elegante e precisa, deu suporte no processo de criação de Eunice. Acreditando na intuição e, capacidade de composição, da grande atriz, foi um perfeito espelho, proporcionando um excelente resultado.
A cenografia e iluminação, que funcionam quase como personagens a contracenar com Eunice e, a música composta para o espetáculo, somam de maneira impecável.
No auge das sensações do espectador, Eunice em plenitude, diz sua última frase e sai. No palco, vemos as ondas do mar, em um vídeo…
Muitos choravam e, por um longo tempo, todos aplaudiram com a emoção de ter confrontado com suas vidas, suas memórias, com a certeza da unidade deixada nessa mágica noite por Eunice.